Teimosia Ética - Dia 6

Como em todos, falou-se sobre o propósito da residência que se desdobra em mil conversas paralelas das nossas inquietudes comuns, sendo uma delas descrita no título.

Por estar a trabalhar meio contra-corrente não tinha pensado que ainda existem problemas de base nas cena das artes performativas em portugal, que afecta... toda a gente, na verdade. Foi por isso que me afastei na altura e é também por isso que não consigo trazer os meus projectos a portugal. A ideia de poder ser usada por fetiche e não pelo meu contributo enquanto agente artístico enoja-me. Não pretendo fazer parte de uma agenda qualquer de um qualquer programador (sim, existe um imenso problema de pessoas com deficiência arranjaram produtores e que os seus projectos sejam escolhidos por um programador) e só de escrever isto já fico cansada. E não ocorre só com artistas com deficiência.

O meu trabalho é sobre o meu trabalho e não sobre a deficiência que só o é para quem observa. Eu sou a mesma pessoa da mesma forma que vejo os meus pares como pessoas - isso significa que vou sempre tentar dialogar temas que me confundem e denunciar práticas que entendo como problemáticas. Este é um luxo que me posso dar porque o meu nome não carrega peso (ninguém depende de mim ou das minhas propostas para recebar um salário para poder comer), sou uma iluste anónima que nao tem onde cair morta e, portanto, não tenho medo de questionar um sistema em que não estou inserida exactamente porque esse sistema não permite que pessoas como eu entrem. 

Nas nossas conversas paralelas, que são ricas e passíveis de censura fora de portas pelo "comité novilisguistico" (a censura da boa educação - coisas que toda a gente sabes e que percebem o ridículo que é mas ninguém quer ser cancelado nem acusado) deveriam ser escritas, debatidas sem medo de ofensa. Como dizia o Mário Branco em '78 (se não estou em erro) "pelo menos agora pode-se falar! ...ou não se pode?" - tragicamente actual...

Desencanto I, Greg e Mafalda, na Black Box 

Em resposta a uma inquietação trazia pelo Rogério que não tive ainda oportunidade de partilhar com ele e, antes que me esqueça - Rogério, o teu público apenas envelheceu e o novo público está em registo expresso e o teu trabalho não o é - creio que só agora é que consegui compreender de forma cerebral o que foi o Dogma e creio que daqui a mais 20 anos vou compreender mais ou de outra forma. 

Inclusão acarreta em si exclusão. Porque voltar ao mesmo formato opressor?

Outra coisa que me parece importante colocar aqui por escrito, como compromisso da minha palavra e prática, o artista é também responsável pela alimentação da máquina opressora. Podemos responsabilizar toda uma hierarquia instituída mas ela só existe porque existe quem o faça. O topo só aprende quando a base deixa de os suportar. Isto não é do Rogério, é meu - o artista é também responsável pela sua opressão.

Desalento II, Greg e Mafalda às 00:30 na cozinha 

A teimosia ética não será mais que uma inabilidade e/ ou recusa de corresponder às tendências vigentes. De minha parte só posso falar por mim. Obviamente que o mundo entende os motivos passíveis de serem apresentados na defesa do artista, e a bola não gira por esse mesmo motivo. Porque as tendências hoje vão ser diferentes de amanhã e o que não acompanharem são descartados - é inevitável e já vi "modas" a cair. As artes performativas não devem ser vistas como objectos de consumo, isso tem um prazo e seria bom que não fossem "palcos para activismo" per se - a presença nos palcos de artistas "não convencionais" é por si só um gesto político, e como me dizia o Miguel Borges nas aulas "não digas duas vezes o mesmo". O meu corpo em palco é político, e basta. Fora de palco podemos sim falar de questões associadas à minha condição (palco é qualquer dispositivo que se assume como tal). 

Falamos de muitas outras coisas hoje, mas importa-me trazer isto hoje. Até logo.



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