sábado, 21 de maio de 2011

Madrugada

É este o nome do programa de rádio que estou a ouvir. É também o nome da altura do dia em que estou mais desperta. São 5h57 e estes últimos dias, invulgares. Hoje saí e diverti-me como não fazia há muito. Ontem tive a certeza de ter perdido um amigo. Anteontem, lágrimas. Hoje dores físicas para terminar com essas mesmas dores. Estranho, mas se pensarmos bem tudo o que dói um tempo e chega a doer atrozmente, deixa de doer.
O meu anti-deperssivo foi aumentado. Não quero desistir de mim.
Mas há sempre coisas maravilhosas, mesmo quando sabemos que batemos lá bem no fundo; a magia do acaso fez-me perder um amigo mas deu-me outro. E devolveu-me os que já não via há muito. Deu-me lágrimas mas devolveu-me a dança. Está a dar-me um ataque neste momento. Pequeno. Já tomei o SOS.
Desculpa, mas tenho de ficar por aqui por agora.
Isto passa.

sábado, 14 de maio de 2011

AAAAAAAARRRRRRRRRRRGGGGGGGGGHHHHHHHHHH!!

quando a vida é o inferno e nao se acredita em deus, quem leva com as culpas??

sábado, 7 de maio de 2011

?

O meu apetite comeu-se a si próprio. Todo o alimento, por mais visual ou olfactivo que sejam, causam em mim uma repugnância que desperta logo o meu estômago – como se preparasse um vomito, dançam dentro de si os sucos gástricos, num bacanal desenfreado de quem só os que têm por medicação por ração diária é capaz de compreender. É um fenómeno cuja causa principal, dizem os mais conceituados médicos, se deve a uma incapacidade aguda de sair da cama, de excesso de olhar para o tecto a contar as manchas de bolor que possam surgir a decora-lo com imagens dúbias, e memorizar os trajectos dos incestos, para depois me aperceber que – para os rastejantes – morrem sempre a caminho do seu objectivo, ou então – para os voadores – morrem sempre à procura da liberdade. Um dia, meses depois de observar o tecto, perguntei à imagem de um rosto que surgia sempre á mesma hora de todos os dias, se era imortal. A imagem nunca mais voltou. Não me lembro já da pessoa que era, ou se era sequer uma pessoa.

Ao longo de todos estes dias os meus olhos foram-se colando com a remela verde até ver tudo turvo. Os meu lábios estão descascados como uma cebola, e eles também se fecharam com restos de saliva velha. A minha boca é uma ferida aberta, branca. Tudo o que não fazia sentido de ser utilizado deixou de ter importância. Por outro lado, ganhei outro sentido, o da cama. Já não sei diferenciar a minha pele dos lençóis e, quando está frio, sinto os azulejos do qual é feito o chão. Sei como está o tempo pelo cantar dos pássaros; não os vejo mas conheço-os. A minha audição é capaz de descobrir se esta ou aquela cantiga é do mesmo pássaro, mesmo que cantem a mesma melodia. É assim que sei qual a estação do ano em que me encontro. Na primavera há piares-pedidos, piares-excitação, piares-medo. Há também o subtil ruído das jovens asas a mexerem-se descoordenamente. Antes ainda rodava a cabeça para as ver, mas antes dos meus olhos terem desistido de me dar visão já eu tinha desistido de ver.