quinta-feira, 29 de maio de 2008

Freak Show

Já há um tempo que penso em escrever sobre isto, mas nunca o fiz, não sei porquê… Eu vejo coisas tão anacrónicas na fisio (e quando digo fisio estou-me a referir a todas as terapias que faço) que parece que quando entro e os doentes vão chegando, que estou num cabaret de freak show. Como se eu fosse uma antiga atracção que não serve mais para fazer o espectáculo.
Não fiques chocado; é algo que sinto e não adianta criticares-me por isso; só eu sei, só eu vivo aquilo todos os dias. Nada me impressiona, agora. Não me impressiona ver homens com as mãos calejadas pelo trabalho numa cadeira de rodas e com uma fralda; não me impressiona ver um miúdo de 17 anos com paralisia cerebral que tem o corpo todo atrofiado por não se mexer; não me impressiona ver uma senhora a babar-se numa cadeira de rodas porque teve um AVC e não consegue controlar os músculos da face. Chocar-me-ia, certamente, noutra altura da minha vida, mas agora não. Queira ou não queira tenho handicaps, ou seja, deficiências motoras, por momentâneas que sejas, ou talvez não. Não sei, e ninguém pode saber. Independente disto quero deixar bem claro que SOU COMO ELES, alias, sou como tu, que és igual a eles, e por isso pára de me dizer que eu não sou deficiente porque sou! Neste momento sou! Quero que isto fique bem claro, e passo a explicar:
Compreendo o que me queres dizer com “não és deficiente nenhuma”. Os que me conhecem há anos, vêem a mesma Daniela de sempre, mas não sou. Para os que me conhecem agora sou “a Daniela, aquela que teve um AVC”, e tenho de concordar com eles todos - Sou a Daniela do AVC, mas que continua a mesma. Tenho de aprender a utilizar o meu corpo agora e não estar à espera que ele fique melhor para o fazer, tenho de usar o meu corpo com deficiências porque elas existem e não posso ignora-las e fingir que nunca aconteceu nada. Há sempre a esperança de ficar a 99%, e se for só daqui a anos? E se nunca for? Recuso-me a afligir mais por causa disso, aceita-me como sou agora. Já tive muita vergonha de estar deficiente. Chega. Não estejas sempre a criticar-me por dizer que sou deficiente porque, de facto, sou.
As pessoas olhem para mim, e daí? Tirei Teatro por alguma coisa, e agora a minha vida é um palco permanente! Cansa-me, claro, fico revoltada por determinadas coisas. Mas não há maior agonia neste momento que estar presa a um sítio. Tudo o resto é espectáculo, meu amigo, e gratuito! Daí eu falar no Freak Show. Os artistas que fazem esse tipo de espectáculos não têm qualquer tipo de problemas com a característica que faz deles “feaks”, ou seja, pessoas fora do comum que fazem coisas extraordinárias. Existe uma força, um optimismo, uma esperança nos meus colegas da fisio que nunca tinha visto. É o sentimento primário de sobrevivência no seu lado mais físico. Somos os “freaks” da esperança e da determinação. Somos “freaks” porque aprendemos que a vida em si não tem importância. Como vivemos a vida, aí sim. A vida existir por si só, não precisa de ti para existir. Agora basta que algo a faça mexer, e neste Freak Show sou a porteira, a que recebe os bilhetes, a apresentadora. Estou nem num lado nem no outro. Estou algures entre o extraordinário e o normal, e confesso que nunca desejei tão ser normal como agora. Contudo, apesar disso, tenho momentos de puro arrebatamento pela vida, pela simplicidade da vida como, por exemplo, voltar a sentir. Aprender a mexer-me, mas consciente de cada músculo, tendão que tenho que usar para fazer determinado movimento.
Estou a aprender a lição mais importante da minha vida e tu, tu e até tu fazem parte desta historia. Então não me critiques; goza estes momentos comigo, sejam bons ou maus, porque é a tristeza que faz a felicidade.

P.S.: Claro que há aqueles que desistiram. São cadaverer à espera da morte. Mas isso é assunto para outro post...

domingo, 25 de maio de 2008

Palavas sábias, pequeno Maksym...

Dia 23 (última 6ª) encontrei este desenho no dossiser do professor:




É um desenho do Maksym, um puto ucraniano a quem dou aulas (3º ano). Como não dá para perceber muito bem o que está escrito e desenhado, vou fazer uma pequena legenda:

1º- Nota da professora: "Foi mandado ao aluno um desenho sobre o Dia da Libredade." (isto depois de ter visto o que o puto desenhou, claro...)

2º- O desenho é que uma montanta e de um homem de balão de ar quente.

3º- O miúdo escreveu num balão, o seginte:

"Que porcaria de liberdade!!!!!!!!!!!
Tenho de despejar o autoclismo.
Áh, que bom é este bico desta montanha enfiou-se dentro do meu CÚ!"

Deve ser o único puto que deve realmente saber o que é o 25 de Abril em Portugal!! BRAVO, MAKSYM!! =)

sexta-feira, 23 de maio de 2008

A minha mão in action

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Notas-se ainda um pouco de descontrolo no ombro e no cotovelo.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

A minha voz nova

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(Eu não sabia que estava a ser filmada, por isso perdoa-me a minha linguagem. Eu e o meu amigo Fadigas estavamos a falar desta nova onda de Emos, e eu estava a dizer que que mais valia os putos terem sido Emos do que a onda de dance music pirosa e pop piroso que o pessoal da minha idade ouvia quando tinhamos 13, 14 anos -para quem nao sabe, dou-vos uns exemplos: Vengaboys, Spice Girls... muito mau, mesmo. Mas o que queria que tu ouvisses era a minha nova voz.)

Espaço III - Sala de Optometria

Sala da tortura chinesa: Onde tentam com que os meus olhos rodem para dentro...














É neste aparelhos que me obrigam a focar coisinhas pequenas, e nem imaginas o esforço que é. É como se semi-cerraces os olhos por estar muita luz. Nesse aspecto estou no máximo, ou seja, vejo como uma pessoa normal.





É nesta cruz que reside a minha cruz. Focar ao longe custa-me mais. Não um problema grave; é como se fosse míope sem ter a patologia.




Este aparelho deixei de o usar quando as terapeitas/ médicas (??) descobriram que tinha epilepsia. Basicamente olhava para umas figuras que estava dentro daquele aparelho e quando começasse a ver duas imagens aquilo começava a piscar por forma a obrigar o olho a reagir. Fiz isso umas três vezes.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Espaço II - Sala de Terapia Ocupacional

É difícil tirar fotos a esta sala porque está lá sempre gente. Tive sorte desta vez, e consegi tirar algumas.

Faço calores (ou seja, durante meia hora tenho de ficar com parafanes - coisas quentes - no ombro e no cotovelo para ver se não arranjo nenhuma tendinite) deitada, e antes olhava para este poster o tempo todo. Agora, adormeço...

Essa perna é minha :) Não dá para perceber a dimensão real da sala, mas já dá para ter uma ideia. Parece uma sala de aulas da primária, cheio de jogos. Passo lá 1h30 todos os dias.

Prendas para a professora!!

Ontem o Nilton do 1º ano ofereceu-me ah... isto!
Não sei ele estava a gozar comigo ou se é normal este ser o sentido estético de um miúdo de 7 anos.
(Nota: Ainda vinha com raíz e tudo!)

terça-feira, 20 de maio de 2008

Só agora é que me lembrei...

Aprendiz de Feiticeiro diz:
ás vezes bate-me esta angustia, so isso

Gustavo diz:
é perfeitamente compreensível

Aprendiz de Feiticeiro diz:
por isso bebia

Aprendiz de Feiticeiro diz:
e agr n posso

Gustavo diz:
ou seja esta tua angustia é anterior ao que te aconteceu?

Aprendiz de Feiticeiro diz:
imagina uma bola de neve gigante na minha barriga

Aprendiz de Feiticeiro diz:
qd n se mexe, n tenho dor

Aprendiz de Feiticeiro diz:
é mais ou menos assim

Gustavo diz:
referes-te à tua angustia portanto..

Aprendiz de Feiticeiro diz:
sim

Aprendiz de Feiticeiro diz:
e qt mais tempo me vou sentido presa, pior é

Aprendiz de Feiticeiro diz:
pk antes tinha sempre a oportunidade de sair por um bocado

Gustavo diz:
então a tua angustia é anterior ao teu problema, certo?

Aprendiz de Feiticeiro diz:
ela estava controlada

Aprendiz de Feiticeiro diz:
andei a tomar ansioliticos e anti-depressivos

Aprendiz de Feiticeiro diz:
so que agr sinto-me a cair, por vezes

Aprendiz de Feiticeiro diz:
já sei o que se passa

Aprendiz de Feiticeiro diz:
hj faz 11 meses.

Gustavo diz:
foi "esta" noite?

Gustavo diz:
ah yah..

Gustavo diz:
20 de junho

Gustavo diz:
certo?

Aprendiz de Feiticeiro diz:
19 de junho às 21h30

Gustavo diz:
estás aí? Está tudo bem?


Faz 11 meses... AGORA.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Espaço I - O Ginásio





O ginásio (onde faço a Fisioterapia) é composto por duas partes.
Estas fotos são da parte onde sempre estive.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Uns meses antes do AVC

Oportunidade do Espectador #01, Daniela Reis (caldas da rainha) - www.vouatuacasa.blogspot.com

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Outra prenda de inigualável valor

Gustavo Santos, um artista magnífico que encontrei perdido no Mundo.
(Começo a ficar mimada... )

segunda-feira, 12 de maio de 2008

A minha primeira prenda como professora!!

Hoje, cheguei à sala do 1º ano e a minha aluna Inês chegou-se ao pé de mim e deu-me esta flor. Na mão dela até parecia maior.
Será que eles gostam de mim? Eheheh

sábado, 10 de maio de 2008

Upgrade de fotos II

Foto tirada quando ainda estava nos Covões
(esq. para a direita: Carla - minha irmã- e Ana Rita)
A Rita odeia cerveja, mas nessa noite bebeu uma mini em minha honra.
No fatídico mês de Agosto.
O meu lado direito não mexia, como se nota pela posição do braço.



Mês de Setembro.
(Da esq. para a direita: Paulo, Rebeca, eu e o António)
Agora é que me estou a aperceber do hardcore que é ter uma cicatriz na cabeça...

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Ensaio para o Ego

Ontem, estava na cama a sentir pena de mim mesma (como tenho feito ultimamente) e apercebi-me que devia levantar o astral, pelo menos um bocadinho, antes que voltasse à depressão. E que mais para levantar o astral? O EGO, pois claro. Quando se tem fraca auto-estima... Enfim. Peguei na máquina do telemóvel (dá mais jeito para trabalhas com a mão esquerda) e tirei uma série de fotos. As primeiras de 2008.



SEXY AVC
(para fazer menção à performance Sexy MF, de João Galante e Ana Borralho eheh)



Ainda Não Vi a Luz


Amor ou Indiferença



Devoção




Dominatore




Ciúme



Ingénua Perversão




Melancolia



Languidez


Blume




Não acredito, mas Amo-te



Volúpia

sábado, 3 de maio de 2008

Catatónia

Estou assustada, estou assustada, estou assustada, cada vez sinto menos o pé e a mão, cada vez estou mais fraca, tão fraca que levantar a mão é penoso, não só pelas dores, mas também pelo esforço. Tão fraca que os meus lábios vertem a bebida, não vedam bem. O que está a passar comigo? Não perdi os movimentos, mas estou tão fraca que estou na cama há 24h. Espero sempre que, quando acordar, esteja normal, e aí levanto-me e só sinto a parte esquerda. Era como se tivesse outro AVC, mas fosse capaz de me mexer.
E o meu cérebro… Perco muitas vezes a noção do que estou a fazer. Ontem, uma contínua estava a explicar-me onde era uma sala e eu fiquei ali, 1 ou 2 minutos sem entender o que ela estava a dizer. Como se ela, por um momento, começasse a falar russo. Ela olhava para mim como se eu fosse maluca, e eu pedi-lhe para repetir uns 4 ou 5 vezes para ver se ganhava tempo para finalmente perceber o que ela estava a dizer. Eu sei que existe um tipo de epilepsia que é isso mesmo, chamam-se “Ausências”. Nunca tive tantas ausências na minha vida, sejam elas crises epilépticas ou paranóia. Por exemplo, estou a escrever no computador e as palavras saem espontaneamente porque o meu raciocínio está tão lento que escrevo mais depressa do que penso. Às vezes paro para ler o que já escrevi e demoro uma eternidade a concertar-me.
A minha medicação para a epilepsia foi aumentada na segunda-feira passada. Estou num estado quase catatónico, tenho tanto medo se ficar assim para sempre!...

Neste momento a paciente está a tomar:
Manhã
- 1 comprimido de Sertralina, 50 mg (antidepressivo)
- 1 comprimido de Oxcarbazepina, 300 mg (anticonvulsivantes)
- ½ comprimido de Fenitoína, ou seja, 50 mg (anticonvulsivantes)

Tarde
- 1 comprimido de Fenitoína, 100 mg (anticonvulsivantes)

Jantar
- 2 comprimidos de Oxcarbazepina, ou seja, 600 mg (anticonvulsivantes)

Deitar
- 2 comprimidos de Clonazepam, ou seja, 1mg (anticonvulsivantes, e oportunamente ansiolítico…)
- ½ comprimido de Fenitoína, ou seja, 50 mg (anticonvulsivantes)


Agora é que me estou a aperceber da quantidade de droga tenho nas minhas veias. Drogas legais, ou como dizia a Sarah Kane, “lobotomia química”. É um preço, uma multa que vou pagar por ter sobrevivido.

Ainda há esperança
Ainda há esperança que tudo acabe
Ainda há esperança que tudo acabe bem.