sábado, 21 de dezembro de 2013

Solsticio de Beleza

Quando o calor da despedida começa a chegar com um abraço, encontrava-me sentada à janela a fumar o último cigarro do dia, e bailava em mim o frio que nos faz sentir vivos. Estava estonteada pelo céu de inverno que me roubava a alma, um céu cru, nu, que me lançava para aquela dimenção que já aqui referi, a dimensão da beleza desmedida que me explode em mim fragmentos de não-ser e ser tudo a mesmo tempo. Debussy tocava para mim, nessa altura. Subitamente vejo algo pelo canto do olho. Era a estrela cadente mais bela que alguma vez vira, enorme, azul, rápida, como o olhar de uma criança na sua fantasia. Não há palavras que exprimam um terço do que senti. Foi como se toda a minha vida tivesse valido a pena para viver aquele momento. Claire de la Lune terminara. O momento chegara ao fim. Sentia apenas frio. Pensei que talvez as estrelas não fossem mais que uma metáfora - existem as magnificas, que por serem importantes estão sempre lá. Eu quero ser a que vi hoje.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Arrastando o meu cadaver

No papel frases sem coordenação. Na minha cabeça existe um tornado permanente onde as palavras se tentam aglomerar sem sucesso. A força vital escapa-me entre os dedos e arrasto-me pelos corredores de café na mão e cigarro nos lábios. Olho-me ao espelho e evito-me. Receio ver a minha idade mental estampada do meu rosto. Receio estar a assistir à minha queda, um "burnout" como os médicos lhe chamam. Quero gritar e saltar do barco, mesmo que saiba que a praia está a metros, abençoar a minha pequenez e adormecer na grandeza do sal. Purificação. Estar só no mundo apenas uns minutos, para conseguir respirar. Nunca me senti tão só na vida. Quero cuspir no ultimo ano da minha vida, queimar todas as recordações e fingir que isto não passou de um sonho mau.

sábado, 16 de novembro de 2013

66 minutes

Someone is spying on me...

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Burning Skies

A tristeza fica-me bem. Terminei um livro que não queria terminar, um milhão de paginas escritas manualmente onde os borrões imperam como ilustrações expressionista. As energias "karmicas" foram desafiadas demasiadas vezes. Recuso-me a ser comandada por um "destino" qualquer, mas sinto um vazio tremento, quase como uma supernova. O céu nocturno que me valha pois a gravidade é-me pesada e enterra-me vagarosamente numa cova rasa. A verdade é que odeio a tristeza tanto quanto a amo, de uma forma tão pura que fere. Sofro de episódios frequetes de absoluta felicidade, meras epifanias, esgares, violentos espasmos de harmonia - ocorre num completo retraimento dado a sua curta duração. Penso que pessoa alguma os presenciou. Ou ocorre por estar só, provavelmente por não conseguir partilha-lo, ou não o saber partilhar, ou até partilho-os de forma bizarra. Presumo que não sou linear, nem comigo nem com os outros, como um cão enorme que quer brincar mas atira a pessoa ao chão. Sou bastante naif nisto nas relações humanas. Sou naif o suficiente para amar quando não o sei fazer, nem sequer a mim própria. Amo utopias, e isso acarreta o isolamento como moeda de troca. Até hoje consegui apenas histórias. Embeveço-me nas ideias, projectos, trabalho, tudo para enganar a dor. Mas ela vinga-se e puxa-me para a realidade com uma agressividade extrema, força-me a beijar o lancil e pergunta-me quem julgo ser. Fecho-me a pedir ajuda, mas não estendo a mão a ninguém. É sufocante gritar quando as lágrimas não caem. Nessas alturas a loucura toma lugar e começo a pintar uma tela de um bordeaux maravilhoso, até chegar à magnificência do alivio. No entanto a tela permanece no cavalete após o climax e fico com medo e vergonha de olhar para ela. Não me orgulho desta necessidade. Não me orgulho de nada. Esqueço rapidamente as minhas vitórias e guardo apenas as magoas. Vitima de mim mesma, encarcerada na minha violência. Estou cansada de mim, e a minha penitência é viver. Se algum dia me permitirei a ser feliz? Não faço a mais pequena ideia. Se francamente o desejo?

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Corpo

A casca aperta o tecido viscoso. O musculo dança instavel. O mundo paira como num barco. O bolo passeia, e a cobra vomita. O descanso é um pesadelo e as batidas ecoam. Vivo num inferno, vivo em mim. Impotência do ser. Esperança... utopia. O meu corpo rejeta-me, a minha alma há muito que partiu. Lavo a cara com sal,arde, cura, queima. Do meu peito corre pus, e em mim o musgo aloja-se, servido os vermes dum festim sadico. Minto com o sorriso, desenho com os olhos. Tranquilidade não passa de uma noção que não vivo.

sábado, 5 de outubro de 2013

Lima(r) aresta(s)

Echo and the Bunnymen. (VOID) Respiro fundo. A musica será real esta noite. Dançarei descalça na rua, abençoada pela noite e pela dualidade entre a tristeza alegria da solidão. Deitar-me-ei no chão quente. "Hey! Been trying to meet you." Sou um saco rasgado de amor, que vai espalhando por onde passa. É um defeito de fabrico. "Must be a devil between us" porque procuro-te sempre nas pessoas erradas. Tenho medo de quando te encontrar e que já tenha o saco vazio. Se te encontrar. Se não te tiver encontrado já... "Everybody knows that you're insane", dir-me-ias. E a verdade é que eu sei, e já que nem a medicação que torna menos louca, resta-me o exilio forçado pela minha incompetência de ser feliz. Venus in Furs. Penso no sonho que tive contigo hoje. Acordei em panico; no sonho dizias-me que eu devia fazer um tratamento como o teu. Via-te a correr atrás do carro e a desistires, com a tua irmã a apertar-te a mão. "Different colours made of tears". Uma mosca dança em meu torno, talvez já seja um cadáver e não saiba. Canto os meu pulmões fora de mim, a angustia da saudade abraça-me até o ar me rejeitar, e com o ar, tu. O respeito que te prometi atormenta-me. "Le amours perdues" avisa-me o Serge. Amo-te há demasiados anos, uma vida. Recordo-me de tudo como se tudo se tivesse passado ontem. Fez 12 anos no dia 3 agosto, abençoado por Placedo. Como aquela musica faz tanto sentido. "All alone in space and time, there's nothing here but what here's mine". Não te espero. O teu corpo já esta cheio, e a minha presença em ti não passa de uma memória que preferias não ter. Encontrar-nos-emos-emos noutro sonho.

sábado, 10 de agosto de 2013

Vómito

Puro ódio, todo o meu corpo se contorce de impotencia, de não poder partir aquela cara de anjo ate ficar irreconhecivel, deformada, inchada de todo o sangue que me corre nas veias, e sorrir ao ver a cara de pânico do imprestavel que me marcou com ferros quentes como se fosse uma vaca. Arrancar-lhe aquela tatuagem com os dentes e após isso cuspir o sangue de natas e kefir que aquele inceto voador tem, o sangue que não é dela, o sangue que fora meu e que dei. 30 - 70 tensão baixa, portas da morte para buscar vitalidade é necessario buscar cadaveres como alimento. Serenidade. Penso que acabei de relatar tudo o que gostaria de me proporcionar. A um passo de enlouquecer, a formiga assume o tamanho de uma arvore, capaz de esmagar-nos com dois dedos, dividir-nos em dois, em três, arrancar-nos os membros. Morte imediata. Fumo um cigarro completamente torto. No meu estomago dirigo apenas a bilis. A lâmina de barbear está escondida porque num dos meus momentos de sanidade escondi-a. O sol esconde-se com medo da musica que me rura propositalmente os ouvidos. Nada a perder. Nada a ganhar. Vivo como obrigação do medo.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Primeiro choque.

É com muita dor que partilho contigo o que acabei de ver e suspeitar. Ontem sonhei, como tem sido estranhamente recorrente, com o meu primeiro amor. História linda e trágica digna de Shakespeare. Como habitual, nesses sonhos sinto-me extremamente bem e feliz ao lado dele, pessoa com quem não falo há quase 5 anos. Já nem me lembro porque, e não foi à falta de tentativas. Há algo que me alerta para ele há uma serie de tempo. Acho que ele se matou de amor. Tenho o coração colado as costelas.

terça-feira, 9 de abril de 2013

O Céu Noctrurno Algarvio

Ás veses sinto-te tão só como o céu nocturno algarvio. Vejo da minha varanda a luz do segurança que me guarda da liberdade. Ele próprio está preso, o guardião da noite. Uns metros afastado de mim está um cadávere que respira. Olho para a minha forca vermelha que vem em forma de fato e tudo deixa de fazer sentido - as humilhações, as ordens, os prazos, as regras. Forcei-me a viver num mundo onde a sociabilização é feita por hipocrisia. Talvez daí eu ame estes momentos de fragil e efémera solitude, onde tenho um pequeno espaço para sonhar. Muitas vezes sinto raiva em forma de dor de cabeça e cansaço. Nos meus braços repousam chagas negras em perfume de éter. Tudo na vida é tão frágil, mas é assustador observar o quão frágil é a nossa própria vida. Chega, penso. Mas olho para tras e vejo tudo o que não consegui alcançar e com os meus quase 27 posso dizer que foram poucas as vitórias. Uma foi grandiosa, mas depois disso só restou a frustração e a dor. Vejo-me e não me sinto. Sou como que um espectro de mim mesma, ou de alguém que já partiu e só deixo cacos do que foi. E eu, com as minhas mãos que abrem quando alcançam algo, vejo-as, sonho e observo-as; e sinto que nunca chegarei lá.

terça-feira, 26 de março de 2013

Reflexões capilares

Sem rodeios, a região pelvica de uma mulher tem, naturalmente, pêlos. Dependente da cultura, isto é um caso sério. Na nossa Velha Europa convencionou-se que os pêlos nessa zona são inesteticos, podendo afectar a auto-estima e confiança de uma mulher, mesmo que mais ninguém tenha acesso (pelo menos visual) ao seu vislumbre. Há variadissimos métodos para se lutar contra os pêlos, controla-los ou diminuindo-los - isso já está ao critério e bolsa de cada um. Eu creio que uso o mais agonizante de todos - depilação. E de todas as zonas, tento consciência que todas elas penosas quando toca a colocar cera quente e tira-la com os malfadados pêlos lá presos, a que que custa mais é a anal. São poucos - creio que uns 10 a 20 pêlos - mas no dito vale a pele grita e eu silênciono-me. Mas que doi, doi. Transpondo isto para o impacto que tem na minha vida, decorre mais ou menos assim: quando entro na esteticista sei que vou sofrer pois já o fiz várias vezes. Mesmo assim tiro a roupa, deito-me na marquesa e aguardo pela tortura. E sei que vou tirar aqueles pelitos do cu, coisa que me custa numa proporção desigual. Tiro-os, mas sei que voltam a nascer e este circulo não pára. Acho que vem daí a expressão "Pain in the ass", pois não há pior que uma dor de cu. As dores que vêm à nossa frente podemos previamente analiza-las e ver o impacto que isso terá nas nossas vidas... Mas a dor de cu não... Sabemos que virá algo penoso, nem que seja pela temperatura da cera, mas não sabemos quando vai doer. Poderemos evitar as dores de cu? Há entendidos que dissem que a depilação a lazer os elimina para sempre. Pois, mas eu como não acredito no conceito de eternidade (se bem que seria engraçado ver um cadaver sem pêlos) continuo com as minhas dores de cu. As mulheres acabam por ficar mais resistentes à dor, mas será mesmo isso ou habituação? Haverá alguma hipotese de acabarmos com as nossas dores? A unica que vejo é ignorar esses pelitos que se acham importantes por conseguirem causar tal descoforto a uma pessoa, e vêm-los crescer, a seu bel-prazer. E vigar-mo-nos apoós a defecação, ao limpar o alegre cu e enche-los de merda. Podem ser grandes, mas não deixam de comer merda.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Pensar na morte

Penso no antigo Hospital Termal das Caldas, no jardim onde tantas vezes os meus pés provaram o orvalho e os meu corpo a frescura das margaridas. Uma agonia aperta-me em dor com este pensamento de pura beleza; saudades, talvez. Medo. Haverá algo mais do que o que vivo? Pairo num sonho frágil que por vezes me deixa cair no chão. E aí não existem margaridas para me suportarem a queda. Quão maravilhoso é deixarmo-nos cair para o buraco! Mas depois de vermos que o sonho é uma doce desilusão a queda deixa de ser uma esperança para se tornar num olhar cansado. Todas as escolhas que fiz sempre pensei que seriam as mais acertadas, e agora que fiz uma que sei que está certa quero afasta-me dela. A minha cabeça distorce os rostos. "Bon courage!" Tento. Na primeira inspiração de cada dia olho para o chão, onde os pequenos raios de Sol espretam. Não consigo ver nada de belo na beleza das coisas simples. Estou-me a tornar num atómato sem forças para remar contra a corrente. As coisas magnificas que já vivi estão a fugir da minha memória, dando espaço para todas as coisas rotineiras e obrigatórias. Obriga-me a ser quem era. Apaga-me as magoas que tenho. O futuro angustia-me tanto que não paro de olhar para trás a procurar culpados pelos meus medos e frustrações. A pergunta "porquê" voltou a corroír-me como ácido. O meu coração grita em taquicardia, o meu cerebro revolta-se em convulsões, os meus olhos vestem-se de negro e eu já não me sinto eu neste corpo. E tu perguntas, porquê continuar? E eu respondo, porque tenho medo de sentir a tranquilidade.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

águas mil

Bom dia noite nova! Vens para me cobrir com a tua companhia severa? Deixa-me respirar um pouco - ajuda-me a manter a cabeça à tona, por favor. Era tão bom se em ti houvesse uma espécie de amor aultruísta, mesmo que hipócrita. As minhas papoilas estão a secar. Anseio que a Primavera chegue para as beijar com o folego de todas as coisas boas que estão para vir. Tomei a medicação em seco. Toda eu sou um ser desidratado. O grito não se solta, está preso na minha garganta, a arranha-la, e toda a minha bocajá está boa de beijar, importas-te com o sangue que escorre? Prova-o mesmo assim, fresco, violento, talvez o seu sabor a metal crie uma corrente entre as nossas bocas. A minha incapacidade de gritar deixa-me afónica antes de o fazer. Esbocei gestos mas não viste e foste. Adeus, que é um adeus defenitivo, porque tudo me foi roubado pela minha propria e genial capaciade de nada poder fazer contra os maleficios do destino, nem contra os maleficios da liberdade. Doêm-me os olhos das lagrimas que não consigo explusar. Dói-me a cabeça do peso dos meus pensamentos. Entro pela porta dos fundos para a felicidade mas ela afinal estava no jardim a gozar os primeiros raios de sol da noite. É que afinal o tempo também dói, os ponteiros cravam-se na minha pele a cada tic-tac que solta. Olha para trás; vê aqueles momentos maravilhosos que tivemos. Sabes? Guardei-os todos numa caixa que atirei ao mar. (A caixa deu à costa minutos depois, com todos eles ensopados com a solução água e sódio. Penso no porquê de o mar não o guardar.) O comboio passa. O frio espera-o com estações vazias de sonhos.