quarta-feira, 30 de abril de 2008

O Veneno e A Verdade

Dói-me o corpo por dentro.
É como se estivesses a ser comida
De dentro para fora.
Como se um vírus apodrecesse todos os músculos,
Todos os tendões, todos os ossos.

Tenho dores porque o sinto a revolver-se,
A consumir-me, a amar-me.
Dentro de mim só resta uma papa amarela,
Podre, líquida, que me tenta sair pelo nariz.

Tenho de tapar a boca sempre para não me vomitar,
Um jacto de verdade e desencantos,
Mil palavras sem sentido nenhum
Porque o único sentido das coisas
É não haver sentido nenhum.

As coisas não acontecem por um sentido qualquer,
Não foi Deus, ou o destino, ou um desígnio qualquer.
As coisas acontecem porque devem acontecer.
É difícil responsabilizar o Nada,
É por isso que crês. Para não sentires medo,
Medo da solidão, medo de morreres sozinho.

O veneno do descrédito é a verdade,
Não haver nada nem ninguém que te salve,
Não haver justificações para nada,
Não haver absolvição para nada.

domingo, 27 de abril de 2008

All I Need

São 6 da manhã. Eu devo estar louca em estar acordada, ainda mais no rescaldo do ataque epiléptico… Mas os pássaros estão a acordar e com eles a ânsia de voar, é algo que tento lutar, mas agora vejo, nada disso interessa. Estou a ouvir o último dos Radiohead, coisa que já não fazia há um tempo, e isso puxa-me a vontade de fazer promessas, trocar carinho e até de amar. E agora, embalada pelo cansaço e por isto tudo que estou a ouvir, apetece-me sinceramente ir-me embora. Para o sítio onde as promessas têm cobro e o calor é provocado por mil mãos que afagam os meus defeitos.
Estou tão longe de tudo que às vezes sinto-me longe de mim própria. As lágrimas descem como um ritual rotineiro, não por tristeza, mas por esta frustração de não ser livre para sair daqui e ir ao encontro dos meus fantasmas.

Tenho saudades das minhas preocupações de menina. Crescer foi sempre muito complicado para mim, e então agora… Sinto-me tão desencantada que nem saio do computador para ver um novo dia nascer. Por muito que o amanhecer seja harmonioso, é sempre um prenuncio de mais um dia sem mim. Mais um dia é bom. Mas a espera, a expectativa são coisas muito violentas.
Hoje tentei dançar e não consegui.
Hoje tentei cantar e não consegui.
Não sei se vai ser assim para sempre, mas agora sim, estou assustada com essa possibilidade. A minha graciosidade parece-me uma recordação, e a recordação implica que algo não se volte a repetir. É por isso que é uma recordação. Então eu que sofro de saudade crónica, imagina-me na cama, com o computador ao colo, a minha gata aos meus pés, com os óculos sujos e uma t-shirt de Metallica. A ouvir o despertar, os bons-dias a um novo dia.

Estou doente. Não foi a merda do AVC, é a minha cabeça que não pára, não pára, não pára nunca, e quando adormeço tenho sonhos que me deixam ainda mais cansada. Nem a merda dos comprimidos que tomo me deixam sossegar, não sou pessoa de viver na inércia, quanto mais por obrigação!

Reza por mim, pede por mim que eu estou exausta. Aparece-me e não me digas nada que estou farta de ouvir e de ler. As melhores coisas não se lêem, mesmo que seja um poema subliminar. O sublime está num olhar, num abraço, e não consigo chegar lá porque estou sozinha, mesmo que receba um abraço por minuto. No meio de tanta gente estou sozinha porque me sinto perdida em mim, não me conheço ainda ou jamais.

Reza por mim Reza por mim Reza por mim (e esta música serve para enterrar o que resta de mim numa melancolia profunda, esta música não merecia ser ouvida por mim, eu, que tão frágil sou. All I Need.)

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Justiça Divina

Por cada coisa má acontece uma boa, e vice-versa. É o equilibro das forças enérgicas, o cosmos, a força universal que te mantém vivo. É necessário que a vida tenha a sua quota-parte de dor, nem é para saboreares mais a felicidade, mas para te aperceberes que estás vivo.
Começo este post assim porque ontem tive um dos dias de extremos complementares mais exagerado que tive em toda a minha vida. Geralmente, quando pensava em “por cada coisa má acontece uma boa”, pensava que era um género de compensação que a vida tinha para comigo, mas enganei-me redondamente. Alias, a vida não me deve nada, ela já cá estava antes de eu nascer. A vida começou com aqueles seres unicelulares e ninguém sabe quando acabará, e tu e eu estamos aqui por fazermos parte de um sistema, como todos os animais, todas as plantas. Esquecemos que somos também fauna e vivemos sob a regência da existência e tudo o que ela implica: nascer, morrer, para outros nascerem e morrerem and so on.
A vida é que nos deixa participar nela. O cosmos é a própria vida.
O Ser Humano está tão absorvido nele mesmo que nunca se lembrou que, no fundo, fazemos parte de um sistema tão primário quanto a existência em si.
Os dias cada vez mais me custam a passar. Se antes uma semana passara num minuto, agora parece que cada minuto é uma semana. Não consigo lidar com este sentimento de forma pacifica, e ás vezes perco a cabeça e só me apetece gritar “já chega!!”. Confesso, nunca fui muito paciente, mas o que estou a viver é de deixar um santo a bradar aos céus.

Eu moro perto da estação dos comboios. Sempre adorei comboios, e até me lembro da primeira vez que andei de comboio, tinha uns 7 ou 8 anos. Fui à praia, a São Martinho, com os miúdos da minha escola. Lembro-me que depois, tinha acabado de escurecer (porque eu brincava na rua até fartar) fui apanhar pirilampos com dois amiguitos meus. Lembro-me tão bem dessa tarde como se fosse um dos momentos mais marcantes da minha vida. E foi, à sua maneira, só que eu nunca lhe dei a importância devida por achar que eram coisas próprias de crianças, e que as coisas próprias de criança não tinham importância nenhuma. O que eu julgava que era importante era uma amiga grávida, um casal de namorados à beira do casamento. Não quero dizer que umas fossem mais importantes que outras, mas tiveram o mesmo grau de importância nos momentos em que aconteceram. E os momentos são muito importantes, afinal vivi para ESPERAR os momentos e nunca soube muito bem aproveita-los quando, de facto, os vivi. Pensava “isto é tão bom e vai acabar tão depressa”… Por isso quero viver intensamente, sem nenhum complexo ou tabu, fazer o que me apetecer quando me apetecer (desde que isso não mexa com os sentimentos de ninguém), quero ser feliz (as pessoas deram uma conotação à felicidade tão obtuso que chega a ser deprimente). Eu quero ser feliz com toda a tristeza que isso abarca, e nunca abdicaria do AVC para ser mais feliz. Não é possível faze-lo, então porque deseja-lo? Aconteceu, e encaro isso como uma aprendizagem. Mas sinto que já é tempo de experimentar lançar-me ao mundo – o mundo não é cruel, as pessoas é que são. Toda a aprendizagem é dolorosa porque mexe com o desconhecido, e o que desconhecemos é a morte.

Ontem, outro dia de terapia. Gosto da terapia, só não gosto do que ela implica (um prisão imperceptível a um lugar, neste caso à Marinha Grande, uma cidade que até tem o seu quê de peripécias, mas em cuja cidade eu ansiava por sair, ver outras coisas, viver outras coisas. Vi umas quantas coisas no tempo que estive nas Caldas da Rainha, era mais fácil sair para onde fosse, e agora voltar para casa dos pais, com todo o desejo de independência que sempre tive, pareceu-me uma penitencia em vida).
Estava cansada, porque passei outra noite a dormir mal, sempre com imagens e palavras na cabeça. À tarde fiz a sesta de sempre, mas fui acordada pela minha irmã, que me trazia uma encomenda da minha amiga Gui. Ao abrir a encomenda, parecia que tinha aberto a caixa de Pandora. Era uma série de prendas que só alguém que me conhece muito bem conseguiria oferecer.
As prensas estavam cheias de bilhetinhos:
1. Um batom vermelho vivo, da cor que costumava usar. “Quando estiveres triste ou fora do teu corto, pinta os lábios – observa!”
2. Uma caixinha de música que tocava a “Träumerei”, de Schumann, e na caixa dizia “ Encontrei aqui a tua alma! Dança sempre…”
3. Um CD dos Archive, Longinium
4. O bilhete para o concerto de Diamanda Galás, no Theatro Circo
5. O último álbum da Diamanda Galás Guilty Guilty Guilty
6. O livro Despeço-me da terra da alegria, de Ruy Belo, com uma dedicatória que dizia “Sempre tua Sempre aqui, Sempre juntas…"
7. Quatro rebuçados, um de cada cor

Nesse momento fiquei deleitada, não pelas prendas em si, mas pela alma que ela tinha posto naquilo. Os embrulhos feitos para mim, com gatos à mistura (como não podia deixar de ser). O pormenor com que fez tudo fez-me sentir muito especial, numa altura em que sentia-me tudo, menos especial.

Depois, umas horas mais tarde, uma amiga de turma, a Rosa, envio-me uma mensagem a dizer que ela, o Daniel (que também é amigo de turma) e o Mikos vinham fazer-me uma visita. Essas pessoas sempre admirei pela forma como encaram a vida, são felizes apesar de terem passado uma vida difícil. Jantamos e demoramo-nos em longas conversas sobre a existência, sobre a morte, sobre as pessoas. Estava tão absorvia pela conversa que nem sentia cansaço, e nem fazia ideia de que horas eram. Portanto, esqueci-me dos comprimidos todos.
Eram cerca das 2h30, e estamos à porta de minha casa, no estacionamento, para ver se arranjava coragem para me despedir deles sem chorar. De repente lembrei-me dos comprimidos que devia ter tomado há horas. Dois minutos depois senti que ia ter outra crise epiléptica. Pedi os comprimidos de S.O.S. que estavam na minha mala, mas foi tão galopante que me sentei logo. Meio minuto depois estava deitada, à espera de perder a consciência, porque sabia que aquele ia ser dos hostis. Eu olhava para o céu, e parecia-me que até ele era bonito, com nuvem e tudo, enquanto estava à espera – ou aquilo passava ou ia perder a consciência. Quando senti o corpo quase todo incontrolado, o meu instinto foi pegar na mão do Miguel e tentar olhar para ele… Nesses momentos tenho muito medo de morrer… Aí comecei a ver tudo estranho, como se a minha cabeça estivesse a rodar para trás. Não senti o sufoco, mas estava com problemas em respirar. E então surgiu a pausa… O ataque durou cerca de dois minutos, e espumei. Foi tão agressivo que tenho as costas marcadas dos paralelos no chão.
Acordei. Não conseguia andar (o meu lado direito fica muito frágil). Levantaram-me e levaram-me para casa. Toda a gente estava notoriamente constornada. Eu nunca vi um ataque epiléptico, e ainda bem.
Eles saíram e fui para a cama. Estava a tremer que nem varas verdes, fico sempre com muito frio depois de um ataque. Pedi à minha mãe para se deitar um pouco comigo porque estava aterrava. Adormeci.

Então foi por isso que não fui à terapia. Estou tão dorida que parece que levei uma sova das grandes. Dói-me a cabeça tanto quanto o corpo. Mas a vida continua, não posso viver sempre com medo de ter ataques. Então hoje fui a uma entrevista de emprego, mas não ia com muita esperança, não sei porquê. Acho que sou e vou ser rejeitada do que quer que seja só porque tenho défices motores (eu não sei se vou ficar com eles ou não, mas é como diz o meu amigo Miguel, antes esperar pouco do que ter uma desilusão. Eu não estava habituada a esperar pouco, sempre me entreguei de alma e coração às coisas e às pessoas.)
Era uma vaga para professor de expressões artísticas em Vieira de Leiria, no ATL nas 3 escolas primárias que existem lá. Duas turmas por dia. Fiquei contente, pois era mesmo o que estava a precisar, fazer alguma coisa na área que escolhi, com pouca carga diária 1h30. E depois, os miúdos são seres fantásticos.

Acho que no meio de tanto azar, sempre tive muita sorte. Para te acontecem coisas boas grandes, tens que passar por coisas más grandes. Isto só acontece, claro, se arriscares, se não te contentares só com as coisas pequeninas, ou corres o risco de viver na ROTINA, o que quer dizer que estás bem, mas podias estar melhor, e a maior parte das pessoas vive assim, vivem para o fim do mês para poderem comprar mais coisas, dão umas moedas à Caritas uma vez por anos e já chega. E há outras, que estão tão centradas nas coisas má quem se apercebem das boas, são vítimas deles próprios constantemente. Não se apercebem que as justificações são só uma maneira de camuflar a verdade. A verdade é ingrata e só as pessoas que conseguem aceita-la têm paz, pois sabem que não há nada que elas possam fazer contra a verdade.

Eu quero viver desprendida da mentira. A mentira engana quem quer e não tem coragem para assumir as suas fraquezas.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

O Milhafre e o Branco

Emagreci 5 quilos. Não sei há quanto tempo ando a definhar, mas parece-me que estou a tentar desesperadamente desaparecer. Olho-me ao espelho e vejo ossos, as costelas querem sair de mim. Se calhar é para os pulmões terem mais espaço para respirar, se calhar é este peso que trago no peito que está a ficar mais pesado, não sei. E hoje, no rescaldo de outro dia de penitência, volto-me a sentar ao computador a tentar exprimir encolerizadamente algo que vejo que não consigo explicar. O corpo pede tréguas, mas o cérebro não deixa, tenho que por tudo cá para fora e o mais depressa possível, mesmo que não saiba muito bem o que estou a sentir.
Ontem nem estive perto de exprimir o que queria. Estava bloqueada por tanta raiva, por tanta tristeza. Queria mesmo escrever, para ver se açambarca esta melancolia toda, e ia para a cama húmida dos sonhos perturbadores para, pelo menos, acordar no outro dia pelo mais indiferente àquela dor toda que sinto.
O ombro continua a ser o meu ponto fraco. Mas a minha chaga é na cabeça.

No carro, à saída do Hospital, com dores no joelho que me faziam coxear ainda mais, deu-se um milagre. De repente começou a nevar. Floquinhos leves, andavam ao sabor do vento, para irem cair sobre as pessoas, os carros, o Hospital. Eram umas sementeszinhas, aos milhares, que cobriam o ar de branco, como se fossem confetis de uma festa sobre o meu carro. É Primavera, a estação da mudança. Quem sabe não mudo eu também, como uma flor?
Eu sou uma flor. Tão frágil como uma flor. Uma rosa com espinhos tão pequenos que chegam a ser ridículos. Uma rosa em que a beleza dura um dia, e já pode dizer que, outrora, fora bela, e vive a perseguir aquela beleza que não existe. Aquela beleza não existe mais. Talvez quando ela murchar e se dissolver na terra e sirva de adubo, talvez nasça de novo. Ou nasça um cato.

No caminho, depois de passar pela graça, vi um pássaro, talvez um milhafre. O que me prendeu a atenção foi que ele dava às asas, mas não saía do mesmo lugar. Não sei se era do vento ou se tinha uma asa magoada, mas ele parecia preso por uma corda invisível e tentava desesperadamente libertar-se. Ainda tenho aquela imagem na minha cabeça, dele a tentar voar.

Quando cheguei a casa olhei para mim, com as minhas roupas desajustadas, e pensei “Tudo o que queria dizer vi-o agora”. Cada vez menosprezo mais as palavras. Estou ao computador há mais de uma hora e não te consegui passar, um terço sequer, do que sinto. Mas guarda a imagem do pássaro que não conseguia voar mesmo quando estava a ser agraciado por tentar voar conta o vento.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

"Penso que penso"

Passei este fim-de-semana nas Caldas. Duas noites fora de mim. Duas noites sem me lembrar do meu corpo. Duas noites de pausa dentro desta pausa. E agora voltei para esta pausa que afinal não é pausa nenhuma, que é a minha vida. Só agora é que me apercebi disso.

Esta é a tua nova vida. Aceita-a.
Este é o teu novo corpo. Usa-o.
Ou aguenta-te.

(Cada dia é um dia, quero resistir mais um dia, um momento, uma desilusão, uma luta, uma pausa, uma dor, uma lágrima, só mais hoje. Amanhã? Não posso pensar em amanhã.)
“Penso que penso que penso que penso que ainda vou flipar. Flipar.”

É difícil fingir que está tudo bem. E quanto mais melhorar, pior fico. Quero ser livre, livre para continuar. A morte é tão fácil, não sei qual é o fascínio por ela. Continuar é difícil. Continuar é segurar os nossos fantasmas pelos ombros e encara-los de frente. Olha-los nos olhos e dizer “preciso de ti”. Preciso dos meus medos.
Trocava tudo o que aprendi pela ignorância. Não saber o que é um cateter. Não saber o que é hipersensibilidade. Não saber que tenho muita gente que me ama. Desculpem. Quando estava deprimida era mais fácil. A culpa nunca era minha - era da sociedade; era do meu pai; era dos professores; era de toda a gente menos minha, e andava embriagada à primeira oportunidade porque era bonito. Na minha cabeça uma miúda que bebia e tomava comprimidos e era depressiva, era bonita.

Que estúpida que eu era.

Agora tomo seis comprimidos por dia e não acho piada nenhuma. Não posso beber. Quando tens de pagar um preço maior que o gozo, quando tens mesmo medo, tanto medo que ficas doente, queres pôr-te bom. Ficar bom, mesmo que tenhas receio de não executares o teu talento tão bem. Mesmo que te tornes numa daquelas pessoas normais, com vidas normais.



“Penso que penso que penso que penso que ainda vou flipar. Flipar.”
Tenho que deixar de pensar.
Tenho que deixar de ansiar.
Tenho que deixar de esperar. Esperar. Esperar.
Tenho que deixar de esperar o dia em que vou ficar bem.
Tenho que deixar de esperar o dia em que me vou embora.
Tenho que deixar de esperar o dia em que me vou sentir amada.
…ou corro o risco de flipar.

terça-feira, 15 de abril de 2008

O meu primeiro conto!!

Mais um Dia Difícil
Ele estava num dia difícil. Tinha passado o dia todo a vomitar e com uma diarreia tão atroz que sempre que ia à casa de banho parecia que as paredes do ânus rasgavam.
Ele suava. Tinha o cabelo seboso, que se colava à testa. Tinha as mãos e os pés gelados e em agua. Até era um homem atraente, não fossem os dedos amarelos e o mau hálito. Bem enganada, uma mulher poderia ver nele o amor. Mas ele não amava ninguém para além dele próprio, e sabia disso. Até se divertia quando as mulheres suplicavam por mais uma vez com ele. Houve algumas que levaram mas que, no fundo, até gostavam, então nunca precisou de estar sozinho. Havia qualquer coisa nele que atraias as pessoas.
Houve também umas quantas vezes que fodera com homens, mas isso guardava em segredo. Nunca se preocupou em analisar o porquê desse desvio, não lhe interessava sequer. Nem sabia se tinha gostado ou não, fazia-o porque era desejado, e isso bastava-lhe.
Mas agora estava velho. Ia a caminho dos 50, e já lhe faltava o ar toda a vez que tentava respira.
Nesse dia acordara afogueado. Olhou para a miúda que tinha a seu lado, tinha idade para ser filha dele. Tinha um ar nojento, magra, sem mamas nem cú, cheirava a tabaco e a vinho barato, se calhar era uma puta agarrada à heroína. Se calhar era filha dele, corria esse risco, quantas vezes ele ouviu “estou grávida!”? Não era dele, com certeza, porque ele vinha-se sempre lá fora, quem elas pensavam que estavam a enganar?
Levantou-se do quarto nauseado com o cheiro a cona ordinária e meteu um cigarro nos lábios. Acendeu o lume no fogão e aproveitou para fazer um chá. Pôs a água a ferver, abriu o armário. Tinha chá, uma saqueta perdida no fundo, a ser comida pelas lavras das traças. Afastou as lavras com a mão, e usou-a. Enquanto esperava pelo chá, serviu-se de um bagaço barato e pôs-se a olhar para o pénis. Não tinha o mesmo vigor, é certo, mas ainda se vinha, mesmo que fosse um esperma coagulado e amarelo. Pensou que era impossível ter filhos com aquele esperma, e abanou a cabeça rindo.
Verteu o chá para uma caneca, sentou-se. Levou o chá à boca e foi fustigado, queimou a língua, levantou-se com um sonoro “caralho!” e bebeu um gole de bagaço, e a raiva disparou. Foi ao quarto, agarrou a puta pelos cabelos “vai-te embora!” gritou com aquela voz rouca e profunda.
Ela era tão pequena em relação a ele… Ainda tentou balbuciar qualquer coisa, mas já estava a ser arrastada pelos cabelos pelo corredor fora. Assim que fechou a porta ela começa a tocar incessantemente à campainha. Ele detestava a campainha. Quanto mais ela tocava, mais ele se irritava. Foi ao quarto quase sem conseguir respirar e com a cabeça a latejar, agarrou à mão cheia nalgumas roupas que viu por lá, abriu a porta e quando começou a ouvir aquela voz estridente a tentar gritar com ele, puxou da mão esquerda e foi com a cabeça dela de encontro à porta. Fechou a porta. Ouvia só o silêncio. Voltou ao chá, mas estava frio. Acendeu outro cigarro, e recostou-se para trás. Ainda não tinha travado sequer quando tocaram outra vez à campainha. Ignorou a primeira vez, mas à segunda e à terceira a sua cabeça voltou a latejar, voltou a cólera, o coração corria, e quanto mais depressa ele corria, mais dificuldade tinha em respirar.
Abriu a porta num ápice e fitou a velha do andar de baixo. Ela ia abrir a boca para falar mas assim que o viu ficou suspensa, primeiro pelo facto de ele ter aberto a porta tudo nu, só com meias, e estavam desencontradas. E depois… Aquele olhar cuspia raiva em todas as direcções. “Está a fazer muito barulho!” dizia a velha como se estivesse memorizado aquilo. Ele fez um esforço para respirar fundo e disse-lhe “Mete-te na puta da tua vida” disse com calma, pausadamente, como lhe custasse dizer as palavras, quase como estivesse a cerrar os dentes para não a matar.
Fechou a porta violentamente. Estava a ser corroído pela raiva. Foi à procura do Martini que tinha algures, mas foi dar com a garrafa no chão do quatro. Aquela puta tinha-o bebido. Sentou-se com o coração a palpitar, com o rosto encarnado, com o cigarro na mão e viu. Naquele momento viu.
No chão do quatro, junto à cama, estava uma faca, quase com 10cm de comprimento e 2,5cm de largura. Nunca lhe tinha passado pela cabeça matar-se, mas aquela faca estava a chama-lo, havia uma ligação quase mística entre ele e aquela faca, ela parecia-lhe bela, ele estava sob um feitiço tão poderoso que não conseguia evitar de olhar para ela.
Ele estava assustado. Não podia pegar nela de maneira alguma. A lamina era tão fina quanto uma folha, e pareceu-lhe das coisas mais limpas e puras que alguma vez tivera oportunidade de ver. O braço direito começou a ir em busca dela, assim, sem que o cérebro o tivesse ordenado, e ele não se apercebeu que estava a pegar nela.
Foi como se estivesse noutro sítio, limpo, branco, com uma faca a ir em direcção dele, a afagar-lhe o peito e o pénis. Começou a masturbar-se, segurando o pénis com a mão esquerda e a faca na mão direita a imaginar qual seria a sensação de ter uma faca dentro dele. Ele já sentira algo dentro dele, mas era a primeira vez que o desejava tão ardentemente, com tanta convicção. Estava a sentir tanto prazer que roçou a faca à face, e era mesmo aí, estava a vir-se e passou a faca aos lábios, como se fosse a boca da mulher que mais desejara na vida, era mesmo aí, era tanto o entusiasmo não pode evitar, cortou-se. Do canto da boca até a meio da bochecha.
Gritou como um animal e largou a faca que caio no mesmo sítio onde estava. “Filha da puta!!” então arremessou-a pela janela fora. Tinha o sangue a escorrer pela boca, só parava no ombro, no braço, na cama, no chão.
A raiva tornou-se em frustração. Acabara de foder a mulher mais bela do mundo e nem se conseguiu vir. Agora estava com dores na boca e nos tomates. Pegou numa meia para estacar o sangue. Naquele instante a tripa revoltou-se mais uma vez. Afinal era só mais um dia difícil.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Os Três Estarolas - Situar o Leitor

Paulinho


E.T. Fapigas




Boazona da Rita
Estes são os meus grandes amigos da Marinha Grande.

domingo, 13 de abril de 2008

Daniela com as pessoas mais especiais do Mundo

Outra urgência de escrever, outra fome de palavras, tenho mil frases para te dizer todas ao mesmo tempo, quero mostrar-tas, quero mostrar-te esta Daniela que nasceu de um “sono longo, profundo e cheio de sonhos”. Não te iludas, não sou graciosa nos gestos, mas das minhas mãos saem histórias e afectos desajeitados muito mais profundos que qualquer palavra poderia imaginar ou sequer atrever exprimir.
Sinto-te comigo sobre todas as formas, mesmo quando tu não estás.
Sinto-te comigo ainda mais quando tu não estás.
Obrigada por me fazeres sentir quem sempre fui e que serei a sempre mesma, mesmo que não seja a mesma. Tenho ondas de energia a circularem-me na cabeça só para encontra uma só palavra para te explicar o quanto és importante para mim. Um abraço serviria talvez, ou até um olhar… Porque às vezes os olhos falam mais que qualquer língua, sei disso porque a boca já me traiu.
Hoje, toda eu estou hipersensível e de coração mole por tua causa. Mil “obrigada” por teres surgido na minha vida, e outros mil “obrigada” pelos que ainda não surgiram.

(Tenho os pulmões cheios de ar, mas as cordas vocais não vibram. Estou muda como sempre estive para elogiar-te. Sabes que sou assim. No fundo não gosto das palavras porque elas não roçam sequer o que sinto, por muito que escreva.)



MINHA VONTADE MINHA LIBERDADE!!

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Parabéns, Gata Velha

Despeço-me dos meus 21 anos que não cheguei a viver. Veio uma brisa e apagou tudo aquilo que tinha planeado. Hoje aprendi que fazer planos é erróneo, hoje sei que não devo viver para o futuro, hoje aprendi que nada mais importa do que este momento, pois o passado e o futuro não são comensuráveis, são Ideias. Hoje sinto-me uma alma velha, com muito conhecimento da vida, mas cansada. De certeza que vou recuperar a minha jovialidade, mas tenho marcas na cabeça que nunca vou esquecer.
Ninguém pode desejar uma coisa assim, por muito que se tenha aprendido. Aconteceu, então é bom gozar o momento, por mais difícil que seja. Não peço para viver os meses que me foram roubados, as experiencias que não tive, não peço para voltar a ter aquela ingenuidade que me tornava docemente ignorante e feliz. Peço para me lembrar sempre que cada dia é especial, cada olhar, cada toque, e saber saboreá-los como únicos que são. Afinal, estou a fazer anos, que por pouco que não os celebrava. Agora tenho consciência da volatilidade da existência. Quando se tem a minha idade, toma-se a vida como um dado, e não como uma dádiva. Tenho saudades de sentir isso, que a viva me pertence, mas agora sei, a vida existe sempre, quer tu estevas cá ou não. Ainda me custa pensar na morte, embora me pareça simples. A não-existência é o prenuncio da existência, sempre, quer nós estejamos para nascer ou para morrer. A não-existência não é fácil nem difícil, alias nem É. A vida é simples, demasiado fácil. É difícil lidar com o bruto da vida, ela é tão simples como é cruel.
Eu agora não espero mais do que já tenho. Não desejo mais do que tenho. E o que tenho é bestialmente bom e mau – não acredito mais no bom e no mau, acredito no Ser.
Bom, agora tenho 22 anos. Estou profundamente feliz e melancólica. Estou a ouvir Thom Yorke e a descobrir-me para além do que é possível imaginar. É bárbaro, isso é certo.




Parabéns pequena Daniela, pelos teus mil anos. Tens muita sorte de estar aqui.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Sou mesmo uma palhaça...

2006
E continuo...

terça-feira, 8 de abril de 2008

Mais um poema... Se souberes o que isto dignifica, diz-me.

Avalanche

Encontrei-me desencantada.
Só o terreno é certo e nada mais existe para além disto,
Em que escrevo com a minha mão e esquerda.
Se calhar o amanhã me traga boas notícias.
Se calhar viverei numa esfera prefeita.

(A felicidade só existe
Para quem sente falta dela.)

Cada segundo que passa estou um segundo mais perto da liberdade,
E não há segundo nenhum que custe tanto a passar.
Passo uma vida há espera de alguma coisa,
E quando vem, não é assim tão importante.
Mas a expectativa é uma coisa deliciosa
Quando não tens a certeza. Permite-te sonhar.

E que o cansaço que carrego nas costas
Não é só de agora,
Então ouço a avalanche a correr.
(Não sei quando chegará aqui.
Só espero que se engane no caminho.)
Mas há coisas que têm de acontecer,
Não sei porquê.
Para além das minhas dores vou ficar soterrada no branco.

É isso a paz?

O meu lado esquerdo já não suporta mais.
“Tens que reagir, tens que reagir”
E o meu corpo anda sozinho
Cada vez mais forte
Cada vez mais prefeito.
O meu espírito continua na mesma.
Há quem se congratule por isso,
Mas eu queria ser ainda mais forte,
Ser ainda mais prefeita
Que o meu corpo.
Aqui não há expectativa nenhuma.
Sou como sou.
Sou como sou.
Sou como sou…


08-04-08

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Bem-Vinda a Mim! parte II

Estou perante uma nova Era. Estou feliz. Imagina: estou no meu quarto, a ouvir Dead Can Dance, com a janela toda aberta (já é de noite) e sopra uma brisa tão ligeira que me enche o quarto de mil fragrâncias, de mar, de pinheiros, de pessoas com corpos quentes, de cães vadios… não preciso de mais nada para ser feliz. Sempre gostei do cheiro a primavera, mas agora tenho vontade de ir ao pinhal, de afagar cães vadios, de fazer amor com pessoas de corpo quente… E o mar… O mar é pouco para descrever o que sinto agora, tenho oceanos na minha alma, que se revolvem aqui dentro só para me dizerem “Estás viva, Daniela!” e me tocarem com o seu sal húmido, para que eu prove a própria vida e dizer “Sem dúvida, tenho uma sorte do caralho.”
Não vou escrever mais.
Vou à praia, ver se acho uma vieira.
Se não achar, trago-te o cheiro do mar.

Submissão

Chiu!... Esconde as lágrimas!
Soldado que é soldado não chora! (E homem também não…)
Ergue-te! Não deixes que te vejam cair,
Queres cair, fá-lo sozinho, e esconde a cara
Da vergonha. Corta-te para ninguém ver os teus olhos inchados
De tanto chorar.

(E a mãe do rapazinho suplica por clemência,
Está ali, aos gritos, como se lhe arrancassem as unhas
Uma por uma,
Dez dedos dos pés,
Dez dedos das mãos,
“Matem-me, mas poupem o meu filho!!”
Guincha tanto de dor que mais parece um porco na matança)

Cala-te! Não és tu que serves, não és tu que tens de provar
Este sabor, este cheiro, esta visão da morte,
Não és tu que vergaste tanta dor.
A tua divida está saldada.

(“Porquê? Porquê?? Porque esta injustiça comigo,
Eu que sempre dei tudo,
Que suportei tudo,
Que levei porrada da vida,
Deixa o meu filho e leva-me a mim!”
E nesta altura já a mãe estava no chão,
A esvaziar-se em sangue pelo destino.)

O soldado (que mais parecia de borracha do que um ser humano),
Foi agarrado por mil mãos invisíveis,
Cada uma delas a segurar cada osso, tendão, poros da pele
Que se transformavam em comida mastigava por mil bocas.

O pequeno soldado não existia mais.
A mãe não se quis crer e enlouqueceu.

Um dia, com barba feita, o solado disse-me
“Tenho 17 anos e vivi 40. Não sei quantos mais ainda me restam,
Mas o que restar foi goza-los com uma mulher.”
Afastou-se, rindo que nem um louco
Com as suas pernas raquíticas e com uma erecção.

o4-04-08

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Realmente, a noite é má conselheira...

Esperando a culpa

Ao contrário, não estou cansada.
Acho que desisti dos outros.
Mas principalmente de mim.
Quando mergulhas na aflição de não compreenderes
Os outros, culpas-te a ti.

E não há sentimento pior que a culpa.
Não há sentimento pior que a expectativa.
Não há pior mal que a espera.

Gostaria de ser como aquelas pessoas que não anseiam nada
Pois não há mais nada a esperar.
E a raiva é um amigo de longa data
Que surge a par da frustração de não poder fazer nada
Do que aquilo que já se fez.
Detesto-me assim tão fraca
Tão dependente,
Tão mulher.

3 de Abril de 2008

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Upgrade de fotos

Dia 3 de Setembro
Um dia perguntei à minha primeira fisioterapeuta, a Terapeuta Diana, quando começaria a fazer bicicleta. Ela disse que era ainda cedo. No mesmo dia agarrei-me à bicicleta, e fiz isso todos os dias durante 30 minutos, até o dia em que me disse (passado um mês, ou assim) para ir experimentar fazê-lo.



Dia 9 de Dezembro
Estava como sempre, pijama, com o braço ao colo, e ar de tédio.





Dia 24 de Dezembro
Eu e a minha mãe.




Dia 1 de Março
Bom, para voces verem como estou... Muito regularmente!


15 de Março
Primeira vez que me voltei a maquilhar, seguindo o conselho das minhas Terapeutas Alice e Sofia. Nesse dia fui a um concerto, o Remarinha. Dulpa conquista.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Rogeritto, estou bem-disposta!


Há coisas boas de recordar.
Performance Sexy MF, 2006
(Obrigada pelas fotos, André! Colocaste-me um sorriso na cara...)

Primeiro poema depois do derrame

Expectativa

A dor insuportável de sermos nós,
Começa devagar, como se de uma queda de uma folha
Se tratasse.
O embate é leve, lento, quase doce,
E leva consigo uma brisa de saudade.
Caiu. Parou. E fica à espera
Que o vento a leve para mais longe, tão longe quanto o céu permitia.

Ela sabe que a viagem acabou por ali.
Ela sabe que vai apodrecer no sítio onde estava.
Ela sabe. Mas não deixa de imaginar que o vento a vai levar.

E o tempo vai passando, sem nenhuma surpresa.
(Ela ainda crê que o vento a vai libertar.
Mas ela já não é uma folha. É pó.)
Então, um dia perdia na memoria que já fora uma folha,
Surge o vento, e espalha-a por cidades, casas, pessoas,
Como se ela fosse um humano cremado,
Duma forma tão violenta como visceral.

Ela sabia. Sabia que ele chegaria tarde demais.
Mas também sabia que era assim, e reconfortou-se
Por não ser uma folha, mas ser pó.
Assim, a mais pequena brisa levava-a a viajar,
E ela regozijava. Pois não estava à espera de outra coisa
Que não aquele momento, em que ela,
Mesmo não tendo corpo,
Viajava com a brisa. Até não existir mais.


1 de Abril de 2008





Este foi o primeiro poema que escrevi depois do derrame.




Temia que nunca mais fosse escrever assim.

Olha no que te tornaste!


A primeira foto foi tirada no dia 10 de Março de 2007. As minhas terapeutas insistem para lhes mostrar uma foto do "antes". Era esta quem eu era. Bonita, confiante, que adorava beber, e ir a concertos.
A segunda foto é como o meu lado direito; cansado. Foi tirada hoje, dia 1 de Abril, o mês do meu aniversário. Hoje sinto-me derrotada por circunstâncias avassaladoras.
O passado presegue-me.
Só queria ser feliz. E ir embora...
Nota aos meus amigos: Faz de conta que este post não existe. Por favor.