terça-feira, 12 de outubro de 2010

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4ºC de saudade e frustração. De vestido creme gigante, a puta velha ainda atrai. Todos os dias o antigo comunista russo dá de beber ao mesmo gato à mesma hora, antes de apanhar o trolley. A cidade cheiro a mijo e a perfume de supermercado, o por-do-sol queimado de medo não traz nada de novo. “I'm perfect and my grandfather was a solider. Say it!” repetia o violador com os olhos cravados no odio. O ranho da russa dos poucos dentes de ouro a cair para o chão, o ranho da cor dos olhos dela contam uma historia que não sei qual será. Gestos e punhos presos pela manipulação. A P A T I A. sou daqui e de lado nenhum, sou da manta de roupa suja em que durmo 18h por dia. Tenho uma rosa amarela morta, como o fez o Moliere, à janela. Tenho o cabelo mal-cortado pelas mãos duma cobra que se enrolou à volta do meu pescoço. Amuleto salgado. Paginas que quero queimar mas não consigo. Vi-me a um espelho mais forte que eu e queimei-me. Tira vermelha a lembrar-me que a solidão existe porque a deixo dormir comigo. Sinto a cabeça como um dos solo da versão do “summertime” da Janis, descobri-a num sonho e persegue-me agora, como um véu branco de 200km – cortar, queimar, ter a coragem que o tempo me há-de trazer.
General, baixar armas!

sábado, 28 de agosto de 2010

Mundança

Ela voltou a escrever. Ela já não se sente entediada, apenas limitada pela liberdade. Ela trata-se na terceira pessoa porque muda tão depressa que não chega a ser quem quem é. ou é a rapidez da mudança. Uma boneca nas maos de uma menina.
O tempo, já era tempo. Quando se vive o tempo, não se pensa nele. Anula-se. É marcado pelos outros. É deveras deliciosa a chuva a cair na varanda de um quarto andar que no fundo é um terceiro. E a cama quente. E os pratos sujos. O laranja no cabelo e as palavras ditas em branco sobre branco. Agora ela apercebe-se que nunca houve nada que a impedisse de ser feliz se não ela própria.
Coisas que se descobre no fundo das caixas de recordações dos outros, em sorrisos e em promessas idas. Em suspiros imaginados e enlaces de pernas quentes.
Um dia ela volta. Está ligada umbilicamente a uma coisa que não existe mas que está lá. Como a saudade.

domingo, 20 de junho de 2010

sábado, 5 de junho de 2010

Dor profunda

Ola

olá uma vez mais. Daqui fala-vos aquela voz pobre de quem tem o mundo na boca mas que não sai por via duma afasia doentia provocada por um deus qualquer igualmente doentio. As noites são lugares de solidão e os dias de negação, não há muito por onde a vontade possa manifestar-se. As vozes de outra que não sou, o movimento que gostaria de ser, a cabeça perdida numa viagem de fuga para refugiar-se dum monstro que está constantemente a morder-lhe o lóbulo frontal... os planos de outrora não passam já de sonhos. Ainda ontem tinha 18, 50kg e noites de choro, talvez o meu dedo que adivinha estivesse a sofrer por antecipação, ainda ontem tinha 21, 56kg e abraçava a multidão, a cerveja e o trabalho, ainda ontem tinha os mesmos 21, os mesmos 56kg e quem me abraçou foi a queda que me fez que estou a ser, o quê não sei, mas rezo ao chapéu de coco.
Mas agora sei que nada é como devia ser, adeus teatro que te amo tanto, mas eu não sou quem era e não consigo abraçar-te só uma uma mão.

terça-feira, 30 de março de 2010

Torno de corda

Às vezes desperta algo em nós, em mim, no animal que rasga a pele e nos transforma em monstros escamosos sentados no torno de corda. Tornando-mos tão fortes que a guita cede aos poucos, mas não deixa de ser o torno e preferimos cair em força do que sermos humanos.
Um olho no abismo e outro no relógio e o monstro dilui-se em pedaços de papel rasgados, brancos com uma história que nunca saberemos. A vida em suspenso vale mais do que a vida garantida, a escolha é nossa. Somos tão livres que optamos sempre pela prisão, cortam-nos o cordão e passamos a ser propriedade do medo, a menos que tenhamos a audácia de assumir os erros e começar de novo. Transformar o medo em adrenalina e os olhos em desejos.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Polvo

Boas noites meus caros, boa madrugada e bons olhos secos na escuridão! O corpo pode estar paralisado de impotência, mas os olhos piscam implorando por humidade – freneticamente, as pálpebras para cima e para baixo, tentam pintá-los de um branco saudável!
Bons pensamentos, memórias, projectos que corres no sangue ao passar pelas artérias cerebrais, boas dúvidas, bons esforços para puxar os cobertores para o sitio, boa dor ocular que te faz virar de barriga para cima e olhar para os círculos brancos que vão diminuindo de tamanho só para deixar logo outra aparecer no seu lugar e – ah, magia – fecharem os olhos e verem EXACTAMENTE O MESMO !!

A Insónia é uma rapariga que se deita por cima de nós e nos envolve, como um polvo, com o seu olho OoOoOoOoOoOoOo… e assim por diante, até que adormece connosco no prato e com a faca nos acaricia com sonhos estranhos que não nos é revelado aquando conscientes.
Fechem os olhos com a ajuda da almofada e pensem e sintam bastante, até o sono se vir obrigado a chegar e entrar na boca do polvo.