quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Reflexão nº1

As coisas as vezes são tão difíceis… Não me queixo, mas às vezes bate uma saudade tão grande da vida que levava… Não quero ser ingrata. Mas vejo-me aqui, trancada da Marinha Grande (my hometown), sem puder guiar, sem puder andar sozinha… Às vezes sinto-me como se a minha vida estivesse em pausa, assim, suspenso, sem ruído nem cor. “O espaço é de todos, o tempo é só teu” dizia-me a Carina, e eu vivia tão depressa que nem via o tempo passar. Tenho 21 anos. Só. Já. Não sei… Anda aqui um turbilhão de sentimentos tão intenso que às vezes sinto-me a pessoa mais completa do mundo. Mais completa que o próprio mundo. Outras vezes sinto uma melancolia tão bela que me sinto uma poetiza a escrever um poema. E o que ela sente não é satisfação, é a mortificação do seu Ser, uma vez mais e outra vez, até aceitar. A solidão é uma coisa curiosa. De longe, eu estar sozinha, ou até mesmo desamparada. Falo de uma solidão espiritual, como se ninguém no mundo estivesse perto de imaginasse o que sinto. Por muito que os médicos, terapeutas, famílias, amigos estejam sempre ao nosso lado, há uma solidão incrível neste processo todo de recuperação. Ouço milhares de conselhos todos os dias, e só os ouço por consideração, pois todos os conselhos carecem de verdade. Cada caso é um caso, cada mente é uma mente, e eu nunca me senti tão só na minha vida. Sinto-me só de tudo, das saídas, das viagens, das paixões, da minha perspicácia mental, do movimento do meu corpo… A minha vida agora parece uma sucessão vezes sem conta da mesma semana, com progressos, evidentemente, mas é precisamente a mesma coisas há 6 meses, que foi quando iniciei a terapia. Nunca pensei dizer isto, mas sinto falta do palco e dos olhares estranhos, da transformação de toda aquela energia numa só, numa promiscuidade metódica. E agora é que precedi que tenho andado à procura disso num Ser… É por isso que os actores ficam sempre sozinhos por entre relações fugazes. Não existe nenhum Ser capaz de colmatar essa energia, do olhar do actor sobre o olhar do espectador. Por isso é que digo que este blog é feito para ti, a pessoa que me lê.
Esta foto foi tirada pelo Gonçalo, no meu último trabalho, "Quando nós, os mortos, despertarmos..." de Henrik Ibsen. Não deixa de ser uma mórbida curiosidade...
(Este post é para todos, mas em especial para o João Garcia Miguel, Margarida Tavares, Rogério Nuno Costa, Guilherme Mendonça, Miguel Borges, Miguel Clara Vasconcelos,Margarida Lobo, Rui Leal e João Caridade.)

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Coma

A última coisa que me lembro era de estar a vomitar numa maca, rodeada de enfermeiros e médicos. Depois, quando acordei, pensava que tinha dormido umas horas, ou a noite inteira. (Tinha estado em coma de nível 3 - eles lá sabem o que é… - o que quer dizer que estava muito irrequieta, sobretudo quando tinha visitas. Só souber do coma uns dias após ter acordado.) Sabia que não estava em casa, mas não reconheci aquele lugar como um hospital. O mais estranho foi ver o meu pai; ele estava a olhar para mim. (Um aparte: o meu pai não vive comigo há 15 anos e, além disso, ele está na Alemanha há uns 13 anos…) Pensei que estava a sonhar, mas tinha quase a certeza que não. Estive em coma 13 dias. Nos últimos dias de coma (1 ou 2), nos Cuidados Intensivos estava sempre a acordar e a adormecer, tinha a sensação de que estava assim há dias, não sei se me davam alguma coisa para dormir ou se era mesmo natural que assim acontecesse. Depois que me apercebi que não conseguia falar, comecei a ficar ansiosa, sobretudo porque queria saber onde estava e não conseguia perguntar nada a ninguém. E todas as vezes que acordava chorava, até que a vi a minha mãe, com uma bata. E foi só aí que percebi que estava no hospital, por causa de um bordado da bata. Entre muitas letras tinha um “H”. Ainda não sei como reconheci a letra “H”, que foi das letras mais difíceis de reaprender… De repente começou tudo a fazer sentido; o porquê de ter qualquer coisa enfiada pela garganta abaixo (e então deixei de o tirar); o porquê de me amarrarem o braço bom (para não tirar os tubos); o porquê de ver o meu pai. Deram-me um iogurte para comer e, quando dei por mim, estava num quarto. (Um tempo mais tarde, deram-me o jantar. Era frango. Estava a sentir-me estranha… Até que no dia seguinte me lembrei que não comia carne há 4 anos…)Entretanto, já em recuperação, foi visitar um querido amigo meu, o Zé (que é médico também) e ele perguntou-me se tinha ouvido alguém, ou visto algo. Eu disse que não. Um ou dois meses mais tarde, estava a ouvir uma terapeuta a falar sobre casos de pessoas que estiveram em coma, e lembrei-me nitidamente de pensar que estava a falar com a minha mãe, e não perceber o porquê dela não me responder. Foi aí que me comecei a lembrar de coisas, de ouvir a minha mãe a falar-me da minha gata e, o mais incrível foi de ter noção o espaço onde estava a minha cama, e de ver aquele espaço de cima. Vi a minha mãe a falar comigo e eu lá deitada. Não sei se isto já é imaginação ou não. Tenho que voltar lá para ver se o espaço é o mesmo…

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

O Dia D - Versão do Pedro

"O perigo já passou, desde aquela noite nas Caldas. Naquela noite foi mais dificil, ninguém sabia nada, do que era preciso fazer, do que tinha acontecido, de como tudo se ia resolver. Estava tudo à espera de uma intervenção divína, de uns supra-médicos que resolvessem tudo e voltasses a casa logo na manhã seguinte, que jantassemos na sala como faziamos, e ficar na conversar a noite inteira a dizer parvoices. E acabou por acontecer assim, acho eu. Não voltaste logo, demorou um mês, e nem voltaste a casa. Voltaste toda modificada como se te tivessem substituído alguma coisa e é mais dificil ver-te. Às vezes dá vontade de querer que voltes nessa manhã seguinte, que voltes para casa, no quarto ao lado, mesmo que se tenham passado 1-- dias, mesmo que já nada seja o mesmo desde essa altura. Mas quero que voltes sempre, mesmo que aconteça mais alguma coisa, mesmo que vás de viagem até Berlim (São-Petersburg também deve ser porreiro) ou que fiques podre de rica e não tenhas tempo a perder com cromos, ou que te tornes numa estrela porno-vanguardista num bar qualquer da europa, e que só tenhas paciência para alimentar os teus gatos e o resto que se lixe...mas a partir daquele susto, volta sempre."

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

E-mail ao Rui

Achei que devia por um e-mail que escrevi... O Rui faz-me sempre pensar...

"Sabes, estou feliz. Mesmo apesar de coxear um pouco, ter uma mão com vontade própria, estar disléxica (por isso perdoa-me os erros) e ter epilepsia, sinto uma felicidade como nunca tinha sentido, não sei, vejo o mundo de um modo mais terreno e mais belo. Julgava que "terreno" e "belo" eram conceitos que nunca poderiam estar na mesma frase, sempre tive aquela ilusão de que "the world is not enough", eu não poderia aceitar isso. Mas agora entendi que a felicidade está ao alcance de uma mão, esteve sempre à frente do meu nariz, e eu estava demasiado ocupada para vê-la pois tinha pressa de viver. Não sei se tens esta impressão, mas eu julgada que era imortal, que a morte só chegaria dali a uns bons anos.
Sinto-me feliz porque sinto com a alma, como se ela estivesse desperta para tudo. Talvez porque no 1º mês eu não conseguia falar, nem escrever, nem ler, nada que eu pudesse fazer para exprimir o que me vinha na alma. Então pensava sobre tudo. Doeu-me no inicio quando acordei do coma e me apercebi que não conseguia falar, mas aos poucos percebi que se falasse não tinha nada para dizer. Por isso não te preocupes com o teu bloqueio criativo.
Sabes, como não tenho ainda uma capacidade crítica em pleno, limito-me a sentir e a descobrir o meu corpo e como sinto as coisas agora, sinto as coisas dum modo orgânico, visceral... e não sinto necessidade de as analisar; gozo, como se já estivesse visto o mundo e não houvesse nada por ansiar.
Gosto mesmo de falar contigo, senão não estaria ao computador há mais de uma hora para te escrever um email :) queria-te contar mil coisas... é difícil para mim organizar estes pensamentos todos.
E nunca tive a oportunidade de dizer que te admiro muito. Ter tive, mas as vezes esquecia-me de usar as palavras (nesse aspecto era difícil, não sei porquê). Os mistérios do Ser, não é?"

(Versão sem erros eh eh)

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Ok Ok...

Desculpa... Sei que deves estar confuso... Vamos por partes:

- Tive um derrame cerebral causado por uma malformação no dia 19/06/07;
- Estive em coma 13 dias;
- Estive no Hospital dos Covões 27 dias;
- Tive alta no dia 16/07/07;
- Comecei a fazer terapia no dia 01/08/07;
- Não conseguia ler, nem escrever, nem falar (no primeiro mês);
- Tenho Terapia Ocupacional (Terapeuta Alice), Fisioterapia (comecei com a Terapeuta Diana, e em Janeiro prossegui com a Terapeuta Helena) e Terapia da Fala (Terapeuta Sofia);
- Fiz Hidroterapia durante quase 4 meses (parei para estabilizar as crises epilépticas);
- Tive um ataque epiléptico no dia 27/01/08.

Agora…
- Estou um pouco disléxica;
- Tenho o campo de visão diminuído;
- Escrevo com a mão esquerda;
- Já consigo fazer apreensões finas (pegar em objectos pequenos);
- Faço uma vida normal.

Agora já sabes. Não estou tão frágil como isso. Coxeio um pouco, sim. Mas continuo a mesma. Talvez mais forte...

Oftalmologia

Hoje fui fazer um exame, um PEC, que serve para medir o campo visual. Eu sabia que não tinha o campo de visão normal, pois não vejo 1/3 do lado direito (do olho direito, ou seja, do lado de fora), e tinha a impressão de ver um pouco mal (uma coisa mínima) do lado direito do olho esquerdo. Confirmou-se, de facto tenho um défice do campo de visão em ambos os olhos, sempre do lado direito. Não é diminuição da visão, é redução do campo visual, ou seja, continuo a ver tão bem como antes. Agora vou usar os óculos para ver ao perto, pois ainda tenho outro problema – o meu olho esquerdo não converge, o que quer dizer que não vai para dentro. E por isso tenho muita dificuldade em focar, então fico com dores de cabeça por tudo e por nada. Mas a visão tem vindo a melhorar, ainda há uns meses não via nada (mesmo nada) na metade do olho direito, e agora, para além do campo de visão ter aumentado, já detecto movimento na parte afectada. Claro que foi difícil arranjar consulta em tempo útil, mas as minhas terapeutas, que conheciam o problema, deram um empurrãozito (mesmo assim estive à espera 3 meses – se estivesse em lista de espera demorava um ano).
(Uma coisa curiosa; a minha terapeuta Sofia disse-me que a metade esquerda do cérebro controla o olho esquerdo e vice-versa. Julgava que o lado esquerdo do cérebro controla toda a parte direita do corpo. É por isso que o olho que não se consegue movimentar é o esquerdo…)

21/02/08

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Atar os Sapatos

Um dia, quando estava sentada na minha cama, fitei os meus sapatos desapertados. Olhei para eles como de um touro se tratasse, quando o animal e toureiro sabem instintivamente que vão competir e só um deles irá vencer. É que a paciência nunca foi o meu forte, e aqueles minutos em que esperava que a minha mãe viesse ajudar-me, pareciam-me horas. Não aguentei mais. Envolvi-me num duelo com fitas, dedos, solas, e, por um momento, apercebi-me que já tinha conseguido. Nesse momento o mundo parou de girar e eu pude gozar aquele instante narcísico.
Eu não sabia ler, nem escrever, nem falar, mas sabia atar os sapatos.
Levantei o tronco, e fiquei hirta, com um sorriso tão leve que nem me apercebi que estava a sorrir.

Fins de Agosto



(Eu sei que a gravação está manhosa, mas era para vocês terem uma ideia...)

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Material de Guerra

Cadeira de Apoio
Usei-a durante 6 meses (Até ter o ataque
epilético e passar tomar banho de pé - era
mais rápido)
Trinta contos

Tala para Pé
Usei-a durante 3 dias (Mesmo apesar de o
farmacêutico ter dito à minha mãe que eu
iria ter o pé pendente para sempre.)
Doze contos




Tala para Mão
Usei-a dois meses
Handmade by Terapeuta Alice
Priceless



Dia D - Visão do Nuno

O Nuno comentou no blog...
Foi a noite mais longa de que tenho memória.Lembro-me de olhares para mim e de pedires algo, não percebia o quê. "Deve ser um ataque de pânico". Como podiamos pensar noutra coisa? E de facto havia pânico no teu olhar.Não me vou esquecer dos teus olhos. Depois de poucos minutos (uns 2/3 minutos) mas que pareceram muitos mais, saí a correr buscar um taxí. Primeiro não percebeu bem o que queria e depois não gostou da ideia. Também não percebeu a gravidade da situação. Nem nós a sabiamos. Lembro-me depois de ter sido tudo mt confuso e rápido, um borrão de memórias: não conseguiamos por-te a andar, nem sempre estavas consciente. Peguei-te ao colo, parecias um pardal ferido. Ficaste tão pequena e tão frágil. O que se passou a caminho hospital, não sei, fiquei em casa à procura de documentos. Fui para o Hospital, a Rebeca explicou-me o que se tinha passado, que estavas lá dentro, que tinhas vomitado. Perguntaram se tinhas andado a tomar medicação e pedi ao Pedro para me dar essa informação (ele já estava em casa por essa altura, ou foi por esta altura, não me lembro bem). O Pedro também confuso foi tb ter ao hospital com mais medicamentos que tinhas por casa (drogada do caneco). Depois pediram para ir alguém falar com a médica. Queria saber se tomavas drogas ou tinhas algum tipo de problema que justificasse o que se passava. Dizia que não estavas a reagir. Não o disse, mas percebi que já não estavamos a falar de um simples ataque de pânico. Iam levar-te para Leiria e pediram o contacto de familiares. Dei o da tua irmã, que estava no teu telemovel. Falei com ela primeiro a explicar a situação, para ela falar depois com a tua mãe. Sempre a falar de ataque de pânico, sempre a fugir ao pior. Lá no fundo acho que todos sabiamos que não era assim tão simples, sabiamos que algo de mais complicado se passava. Depois apenas te vi a ir para a ambulância. Falei mais uma vez com a tua irmã, para explicar o resto que se tinha passado. Quando te voltei a ver nos Covões foi um alívio. Estavas com muito melhor cara, melhor do que chegei a pensar. Já deveria saber: és dura de roer rapariga. Pena não haver mais umas poucas como tu.

Depois enviou-me este mail...
Já lá fui (ao blog) e comentei. Epá, tá um bocado mauzinho (o comentário) mas pronto, queria que soubesses o que senti no momento. Engraçado que na altura parecias tão fragil. Sempre pareceste frágil, magra e tal, mas sempre forte, decidida, teimosa (chata). No entanto, naquele momento, os olhos... a maneira como olhavas... atravassava de um lado ao outro.Acho que os olhos são memso o espelho da alma porque a maneira como eles brilhavam quando estavas com o pessoal nos Covões... ali soube que ias ficar bem. Que podia passar-se merda, que podia ser dificil recuperar, mas que ias ficar bem ou mais forte. és uma lutadoraadmiro isso, e não devo ser o unico. E, já agora, a tua irmã: outra rapariga forte e rija como tudo. Deve ser coisa de familia. Bom, vou chupar mais uma mebocaina.beijo. nuno

17/02/08

domingo, 17 de fevereiro de 2008

ATÉ AMANHÃ!


Ataque Epilético

Ontem fui sair à noite. Já não o fazia há um mês, mais ou menos. Desde que tive o ataque epilético. Foi um golpe duro, não estava à espera, mesmo após a neurologista me ter dito que aquelas dormências que eu tinha ás vezes, eram focos epileticos. É que o meu fisiatra tinha-me dito que seria normal que eu, por vezes, tivesse umas dormências, e também como estava farta de comprimidos... Não sei, acho que não acreditava que isso pudesse acontecer. Como se existisse uma justiça poética que não permitia que algo de mal me acontecesse. Pois...
A primeira vez que eu senti essas dormências fui para as Urgências, com direito a ambulância e tudo, um dos espetáculos gratuitos que eu dei lá no bairro. Tinha acabado de sair do banho e o meu lado direito falho. Começei por sentir a mão a ter movimentos descontrolados, até que se deixou de mexer. Estava a ouvir as vozes como se estivesse num túnel, e estava muito confusa. Estive 3 dias nas Urgências entre Leiria e Covões. Fizeram-me um TAC em Leiria, mas não sabiam lê-lo (não foi lido por um neurologista, era fim-de-semana), então enviaram-me para os Covões para fazer um novo TAC. Estava tudo bem. Fui outra vez para Leiria para aguardar que um neurologista viesse falar comigo. Passado uns dias fui a uma consulta de neurologia e foi aí que ela me disse que poderia ser um foco etilético e receitou-me uns comprimidos. Quando eu saí da consulta disse à minha mãe que não ia toma-los. E fui a última vez que me armei em esperta :D.
Passado mais ou menos um mês daquele episódio, ía a sair do banho e aconteceu outra vez (dia 27 de Janeiro). Não entrei em pânico pois as dorências aconteciam regularmente, especialmente do banho, ou na piscina. Mas aquela vez foi diferente, então chamei a minha irmã. Ela tento levantar-me mas eu não conseguia, tinha o pé e a mão direitas descontroladas, e comecei a sufocar. Depois só me lembro de acordar e ver um monte de gente no meu quarto. Eram do INEM, isso eu sabia. Não sabia era porque estavam ali. Fizeram-me perguntas, "Como te chamas?" e não soube responder. Aos poucos fui-me lembrando de tudo. Quando cheguei a casa passei a mamar comprimidos com uma pinta do car*lho (eh eh).
Depois fiquei com medo de tudo. Dos ruídos, das luzes, da água, de tudo, e tranquei-me em casa durante quase um mês. Claro que a medicação não ajudou, estava sempre com uma moca desconunal, mas nada que uns ajustes não resolvessem. Então ontem fui sair à noite.
16/02/08

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Eu e a Gui


A Gui é a pessoa mais optimista que eu conheço. Eu e ela tinhamos (e temos) a certeza que ia tudo correr bem. Nesse dia (17 de Julho), tinha acabado de chegar do hospital e ela vou ver-me. Ela é de Braga e veio feita louca por aí abaixo para me ver. Ainda não saía da cama, e quando vejo aquele sorriso enorme que ela tem, foi como se nada daquilo tivesse acontecido, e eramos nós, umas míudas, como nos bons velhos tempos. A minha mãe contou-me que quando ela saía dos Cuidados Intensivos ela dizia sempre "Ela está tão bem! Vai tudo correr bem, tenho a certeza! Eu senti a energia dela, e ela está bem!".
17/07/07

O Dia D

Era quinta-feira. O ano estava quase a acabar, e estava terminar um trabalho com uma amiga. Jantamos juntas, e estava ao computador quando me comecei a sentir mal. Pensei que fosse outro ataque de pânico, e levantei-me. Dei quatro passos em direcção à sala e caí. Não tentei levantar-me. Os rapazes com quem eu vivia saíram dos quartos e pedi para chamarem a ambulância. Nesse momento eu soube que estava algo de tremendamente errado. A Rebeca passou-me o telemóvel e expliquei o que estava a acontecer – comecei a sentir-me mal, tinha caído ao chão – e caí no erro de dizer que, por vezes, tinha ataques de pânico. A operadora diz imediatamente que era ansiedade. A sua voz era de enfado, como se ela estivesse todo o dia a dizer a mesma coisa. Eu estava a tentar explicar que nunca tinha sentido nada assim, mas a minha voz não correspondeu – ao invés balbuciava letras sem nexo, como se o alfabeto andasse a correr na minha cabeça, perdido. Passei o telemóvel à Rebeca e ela acabou o telefonema. Segundo a operadora o meu mal era um ataque de pânico, que eu devia deitar-me e relaxar. Ela não sabia o que era isso, e era perfeitamente credível que fosse esse o meu problema. Eles aconselharam-me a fazer o que a operadora tinha dito, mas sabia que se passava algo. O problema era que não conseguia falar. Tentei pedir aos meus amigos que telefonassem a um táxi, e só compreenderam quando comecei a gritar com o telemóvel na mão.
A Rebeca calçou-me os ténis e fui a braços (porque não conseguia andar de maneira nenhuma) até ao táxi. Quando o taxista me viu disse prontamente que não me iria levar pois caso acontecesse algo no carro ele seria responsabilizado por isso. Lembro-me de ter pensado “deixa-te de merdas e leva-me ao hospital!”. Estava farta de tantos mal entendidos. O Nuno falou com o taxista e ele concordou levar-me. Assim que chegamos ao hospital senti-me calma. Tinha a cabeça encostada ao colo da Rebeca, parecia que estava noutra dimensão, via tudo diferente, como se tivesse uma película transparente sobre os olhos. Já estava sem ver do lado direito, mas não me apercebi. O segurança aproximou-se, mas não me lembro o que disse. Passado algum tempo vieram buscar-me, estava dentro de uma sala quando comecei a vomitar, vezes sem conta. Foi aí que perdi a consciência.
O resto foi a minha mãe que contou. O Nuno telefonou para a minha irmã a dizer que eu tinha ido para o hospital. Ela julgou que fosse mais um ataque de pânico e não se alarmou, em parte porque a minha mãe estava a dormir pois ia trabalhar ás 5 horas da madrugada. Eram 1 ou 2 horas quando o Nuno telefonou de novo para avisar que eu tinha sido levada para Leiria. A minha irmã acordou a minha mãe e foram para o Hospital de Santo André. Quando lá cheguei ninguém sabia dizer o que me tinha acontecido, mas desconfiavam que fosse uma hemorragia cerebral. A minha mãe julgava que tinha tido um esgotamento nervoso, devido ao meu estilo de vida. Os bombeiros trouxeram-me e a minha mãe teve a oportunidade de me ver. Estava cheia de tubos, quase amarela. Depois fui levada para Coimbra. Não deixaram que a minha mãe fosse pois a ambulância estava cheia de médicos. Não consigo imaginar a aflição da minha mãe naquele momento, sem saber o que se passava, sem poder vir comigo. Em Coimbra fui para os Cuidados Intensivos, depois de ter passado por um quarto. Viram que o meu estado era de risco. No hospital só deixaram o meu padrasto entrar, a minha mãe estava em pânico. Estava ligada a imensos fios e tubos, como uma marioneta. E era, de facto. Esses tubos e fios ajudaram a dar-me vida.

19/06/07

início

daniela, a resistente

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foto: rogério nuno costa & daniela reis
[ "vou a tua casa", caldas da rainha, festival sonda, outubro 2006 ]

no dia 31 de agosto, escrevi:

concorrente número um: chama-se Daniela Reis e é a primeira "espectadora oportuna" a representar a cidade das caldas da rainha. destacou-se no seminário "vou a tua casa", realizado na escola superior de artes e design daquela cidade, nos passados meses de outubro, novembro e dezembro de 2006. este post não é ainda o cartão de apresentação completo desta participante (brevemente, brevemente...); trata-se apenas de uma pequena, mas justa, nota de reconhecimento e de elogio à coragem e à força desta menina, que este ano venceu um problema de saúde gravíssimo, e está aí para as curvas. as deste projecto, inclusive! e eu só me posso sentir orgulhoso.

hoje, escrevo:

...que por enquanto, este blog será escrito por mim, porque a Daniela ainda não está em condições psico-motoras para o fazer sozinha. publicarei, contudo, apenas aquilo que ela quiser, como quiser e quando quiser. vou ter que acompanhar este processo de uma maneira bastante diferente da que usarei para os restantes projectos da "oportunidade", ainda que cumprindo com os mesmos pressupostos técnico-teóricos fundamentados no "dogma 2005". por várias razões artísticas, pessoais e emocionais, posso dizer que estou muito entusiasmado com a existência deste (sem título) no contexto do projecto-mãe. ter visitado a Daniela depois de tudo o que aconteceu foi um dos momentos mais impressionantemente marcantes da minha vida; sinto um privilégio enorme em tê-la presente, e um orgulho ainda maior em sabê-la capaz de vencer todas as adversidades. porque está em processo de reaprendizagem de quase tudo, e ainda assim consegue abraçar um projecto artístico de natureza pouco ortodoxa. se isto fosse a Oprah, tínhamos o chamado "exemplo de coragem". para quem sobrevive ao que ela sobreviveu, um dogmazeco será canja... a partir de hoje, relatos do que se for passando, neste blog e naquele também.

[Rogério]