segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

sábado, 27 de dezembro de 2008

Sísifo

Como reacção ao amargo da minha boca e à ânsia de cigarros, procurei matar a saudade dos dias cruéis pela catalepsia mental. O dia torna-se nos dias, os dias são o Dia, como numa orgia maquinal absurda, como se a minha cabeça fosse uma linha de montagem em que o tapete vai sempre para o mesmo sitio e torna a volta, como um circulo transposto por uma recta que começa e termina com notas desintegradas que formam um ruído que penetra pela alma e que torna uma pessoa num autómato – andar – parar – sentar – executar – levantar – andar – subir – andar – executar – sentar – sem ânsias no coração porque este executa o dia são os dias, o dia o dia o dia o dia o dia o dia o dia o dia o dia o dia o… sentir-me nem satisfeita nem infeliz, não sentir apenas, olhar e não sentir maravilha nem repulsa.
Quebro-me ao mascarar todo o meu desassossego que quase rebenta com a cabeça em partes infindáveis de partículas ínfimas deste mal-estar físico que quer-me tentar dizer “saí saí saí!” mil vezes “SAÍ!”. Mas eu sei. E calo. E passos os dias do Dia em ausência só para tentar suster as náuseas, as dores, as lágrimas, as mudanças, as tonturas, a imobilidade, a agorafobia tortuosa, o medo de perder o controlo das minhas faculdades. O pânico…
Não desejo mais inquietações por favor, suplico a alguém, algo, suplico ao Nada que me deixe entrar em si, na sua redoma de vidro em brasa onde tudo fica em suspenso para não se lacerar ----------------------------- assim, como uma placenta cheia de quimeras ou uma existência alternativa em que tudo está perfeito, onde… Era uma vez e viveram felizes para sempre, como numas folhas perdidas em que desenhava quando não sabia escrever. E quanto mais revivo menos vivo, e quando vivo experimento a aflição de ser um vislumbre.
Andar – parar – sentar – executar – levantar – andar – subir – andar – executar – sentar – andar – parar – sentar – executar – levantar – andar – subir – andar – executar – sentar andar – parar – sentar – executar – levantar – andar – subir – andar – executar – sentar quantas vezes fores precisas, andar – parar – sentar – executar – levantar – andar – subir – andar – executar – sentar e tentar não pensar, andar – parar – sentar – executar – levantar – andar – subir – andar – executar – sentar e fitar o número Vinte e Dois com os olhos muito abertos como se fosse uma criança que de repente se vê mulher e não se tinha apercebido. “Saí!” manda a voz na minha cabeça – mas tenho se ser mais forte que o impulso e ficar, o tempo não se esgota assim, ainda ontem era 2003 e tinha o mundo a meus pés, agora apenas cinco anos depois e carrego-o ás costas.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Feliz Tudo-o-Que-Vocês-Quiserem!!

(R.O. Blechman CBS Christmas Message - 1966)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Descargo de consciência...

Você acredita que as crises:

...podem causar dano ao seu cérebro?

As células do cérebro trabalham juntas e se comunicam por meio de sinais elétricos. Às vezes, há uma descarga elétrica anormal em um grupo de células nervosas e elas enviam sinais incorretos a outras células ou ao restante do corpo, iniciando os "ataques" ou crises. Cada pessoa tem um limiar convulsivo que a faz mais ou menos resistente a excessivas descargas elétricas no cérebro; por isso, qualquer um pode ter uma crise sob determinadas circunstâncias. Os tipos de crises epilépticas dependem da parte do cérebro onde começam essas descargas anormais. Se as crises duram muito tempo, a epilepsia pode causar danos ao cérebro. Porém, a maioria das crises não provoca dano algum.

...podem levar um portador de epilepsia à morte?

A morte, em virtude de ataque epilético é difícil de ocorrer. O risco é maior quando a pessoa tem um ataque que se prolonga por 30 minutos ou mais, sem recuperar a consciência (estado de mal epiléptico). Neste caso, ela deverá ser conduzida a um serviço de pronto atendimento.

Sentimento Esquisito

Na 2a passada morreu um moço com quem andei no secundário. Acho que tinha a minha idade.

Morreu sozinho. Com um ataque epiléptico.

Banner novo

Hoje o Gustavo desenhou um novo banner para o Re-Cobro, não lhe pedi nada de especifico, apenas que desenhasse algo que tivesse a ver comigo.
Acertou em cheio. Obrigada*

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Sr. Henrique

Há coisas que ainda me impressionam mesmo um ano e meio de terapia. Já vi muitos traumatismos cranianos, muitas lesões de AVCs (esquemicos ou hemorrágicos) muitos tipos de lesões de acidentes (trabalho, carro…) já vi os corpos de adolescentes atrofiados por anos de posições erradas devido a paralisias cerebrais. Mas o cérebro é uma caixa de Pandora feroz, quase independente do corpo, quase alienígena. E quando se mexe com o cérebro, não há um padrão que diga “este indivíduo vai reagir da forma xpto devido a lesão que teve”. Don’t mess with the brain, dude. Ou corres o risco de ficares gagá aos 40.
Esta introdução toda para falar do Sr. Henrique. Teve um traumatismo craniano porque ia de bicicleta quando uma carrinha lhe bateu. Levou com um o espelho e depois bateu fortemente contra o alcatrão.
Ele trabalhava na Marinha (acho eu), e fazia de tudo. A minha terapeuta ocupacional conhece-o, pois são da mesma terra. Ora tenta imaginar um senhor com 60 anos, com filhos e netos, dizem com grande sentido de humor. Calvo, não muito gordo, com um ar malandreco, de repente vê-se atirado para uma cadeira de rodas, preso com lenços e com um tabuleiro amarrado à cadeira para não cair ou sair da cadeira, coisa que já fez. A primeira vez que o ouvi ele estava a falar normalmente e (é isto que não esqueço), põe-se a atirar beijos para o ar. Parece que ele está cá, mas está num mundo completamente à parte, começa a falar (e o que diz tem sentido) e, de um momento para o outro, parece que imagina situações ou pessoas. Fisicamente não tem (à vista desarmada) nenhum problema. Mas nota-se que está perdido numa massa cinzenta que não regenera. Manda só as informações para outro lado. Mas nunca se sabe se alguma fica pelo caminho.

Nunca se sabe nada.

sábado, 13 de dezembro de 2008

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Mais uma “ite” e uma sorte do caralho…

Escrevo com uma veia macerada, uma veia na mão esquerda que teve de ser sacrificada por um bem maior; já sei: expiras para não sentires tanta dor. Relaxa-te. Uma agulha de dois ou três centímetros penetrou e vi-a dentro da minha pele, frágil e pálida, “não escorre” disse a enfermeira, e como já conheço tão bem todas as veias do meu corpo como se de um toxicodependente se tratasse, apertei a mão umas três vezes para bombear o sangue até chegar à máquina que analisa a quantidade de açúcar no sangue. De seguida, uma injecção, e um analgésico para parar as dores, as cólicas malfadadas, o estômago virado.
Acordei ás 6h da manhã na terça completamente nauseada. Ás 7 e picos estava a vomitar os cogumelos do jantar. Tinha de comer porque tinha de tomar os comprimidos. E comi. E tomei. Uma hora depois estava a vomitar tudo: chá de camomila e uma bolacha e meia “Maria” que roubei à minha parceira de casa.
Hospital. Naquele mesmo hospital onde me lembro de ter vomitado antes ter apagado 12 dias. Urgências e tudo o mais. Comecei a ter arrepios na espinha, pedi para me ir embora. “Só quando o soro acabar”. Então, se posso sair quando o soro acabar, meti aquilo a escorrer que nem água. Dor por dor, antes aquela do que a da paranóia.
Diagnostico, gastroenterite.