domingo, 3 de setembro de 2017

Ausência

Pergunto-me como não estou ainda imune à decepção, àquela dor que fere bem no fundo e nos bloqueia a traqueia, pergunto-me como não estou ainda imune à esperança. Não sou um ser de luz, desengana-te. Sou um buraco do mais negro que por ser tão negro consome-se a ele próprio. Nula, sou invisível. Como posso não esperar nada e depois sentir-me desprovida do que consegui reunir de mim?

O AVC MATOU-ME, CONDENOU-ME, pior que isso, fodeu-me todas as perspectivas de felicidade que posso vir a ter, eu sou uma mulher ambiciosa, quero mais, mas o mais não está ao meu alcance. Hoje, 10 anos após o infortúnio, 31 anos, semi-humana que erra repetidamente em dar um pouco que si a cada um em troca de uma remota esperança que me faça ter forças para viver, pois meu amigo, morrer é tão mais fácil e tranquilo....

Olham para mim, desejam-me, alguns têm-me mas depois de juras loucas vem a faca, sempre a mesma faca, "não quero uma relação" eu respondo "tranquilo" e fujo para o covil, coser o pedaço do órgão que lá deixei. A hemorragia há-de estacar, até que o cérebro se der ao luxo cortar o ponto-cruz. Eu compreendo o ser humano; é embaraçoso passear com uma miúda que anda de forma estranha. E que dirão os amigos? A família com certeza pensará "como vai ela pegar num bebé?". É legitimo, errado, desonesto e incrivelmente cobarde da vossa parte, da parte de todos vós, seus merdas de rapazolas que me retalharam a este ponto, ao ponto de já nada ter, nada ser. Vocês todos são um peso que me aprisiona a casa, roubaram-me o sorriso, a gentileza, a paciência, graças a vocês tenho uma cicatriz que me atravessa a espinha e no lugar do coração bombeia uma tâmara seca.

Pior que a morta, apenas isto, acordar desejando adormecer, fitar o tecto durante horas, a pensar, a penar. Todos o que trago comigo tornaram-se fantasmas em que vejo sempre as mesmas caras, palavras, promessas, sorrisos. Não consigo odiar então odeio-me. Mas que vos preocupa isso? Nada. Então digo-vos, com toda a certeza, a verdadeira deficiência é, e sempre será, a falta de colhões para romper com regas, prazos, desculpas, impostos pela sociedade que tantos anseiam por agradar. Talvez não seja de facto a mulher para vós. Uma mulher requer um homem como parceiro (sorry LGBT friends, but i'm straight and you know it...) e não um merdinhas que está à espera de ter uma relação com uma nova mãe/ criada/ túmulo.

Já não acredito no amor, nem tão pouco ser agraciada com sorte semelhante. Sempre ouvi dizer "nasce-se e morre-se sozinho". Nunca pensei ter que passar pela vida também na solidão.

domingo, 23 de abril de 2017

Amizade Improvisada

Damour Pourtoi. Este heterónimo sou eu, de facto. O meu inner self. Em amor por ti. Amo tudo incessantemente, incontornavelmente, enlouquecidamente, enraivercidamente. Talvez daí esteja só. Cada vez mais só. Conheço as pessoas tão bem que as afasto. Defeito de ser demasiado honesta e violar o espaço dos outros. Não consigo evitar. Não quero evitar. Esta sou eu. Se me aceitei duas vezes com todas as minhas características, não mudo pelos outros. Não mudo por nada nem por ninguém, Só o tempo e a experiência podem mudar alguns aspectos, mas eu continuarei sempre a ser assim. Sei que tive impacto em todas as pessoas com quem me cruzei na vida, bom ou mau. Ninguém fica indiferente. Por vezes gostava que isso acontecesse.
Gostava de ter alguém que me compreendesse da mesma forma que compreendo os outros. Que me puxasse da fossa com um abraço. Que estivesse sempre lá.
Chego à conclusão que esse alguém não existe. Que exijo demasiado das pessoas. Que espero demasiado delas. Contudo penso que o que peço não é mais do que o que faria por qualquer pessoa que fosse digna da minha amizade. Na corrente deste pensamento, chego à conclusão que não tenho amigos. Nunca tive, com a feliz excepção de um. Também esse afastei. Ainda me assombra, 16 anos depois. Fico feliz por me ter cruzado com ele. Terminámos a nossa amizade com um longo e forte abraço, e cada um seguiu o seu caminho.
As pessoas não sabem amar. No amor vale tudo. Verdadeiro amor. Como fugir de casa e aparecer de surpresa quando se tem 16 anos. Como perdoar uma traição. Mas desta vez não peço um amor. Já nem acredito nele. E quanto à amizade, estou desencantada. As pessoas unem-se porque querem algo, e isso não corresponde ao meu conceito de amizade.
Sou uma utópica. Damour Pourtoi, nome amaldiçoado. Mulher supra-consciente. Doi para caralho.

domingo, 18 de setembro de 2016

bOrDeRlInE

Dói-me a inspirar. A ansiedade comprime-me os pulmões - por vezes o sal agarra-se à minha face, Era bom que o fizesse copiosamente, dessa forma talvez conseguisse respirar mais um pouco. O desejo visceral de ver o ferro jorrar e a luta para não o usar. Olho para a minha mão e diz-me que está velha e cansada e farta. Continua em riste, em punho erguido contra tudo, todos e eu. Sinto o peito a explodir devagar como se de um buraco negro se tratasse, e vai acabar por me consumir. Se é que já não o fez.
A Terra tem, sobre mim, um efeito dissemelhante, puxa-me tanto para si que cavo uma cova a cada passo que dou. Posso cair para o lado que a minha sepultura fica automaticamente pronta. O mundo não precisa de me ouvir, sou um acidente que o destino tento corrigir. Não compreendo porquê este amor pela minha sobrevivência - no fundo é apenas o medo da morte que me coloca aqui. Tento construir algo que se desvanece com a mais pequena das ondas. E repito o processo incessantemente apesar de saber que, no fundo, o mar vai engolir as minhas construções. Só a mim não me leva. Engole-me e cospe-me, como tudo e todos. A vida não é justa, nem tem de o ser. Desencantada, caminho só no meio da multidão. E aí os meus fantasmas vêm visitar-me.
Só o ferro salva. Mesmo que por momentos, só o ferro salva. A medicação... Serve apenas para enganar os lúcidos

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Carta para vós.

Mau mau Maria. Assim não. A nostalgia faz mal à pele e eu não quero ter rugas. Mas aquele bichinho... que pica e pica e pica, não dói mas incomoda, consegues viver a vida toda a pensar que lutaste o suficiente e não conseguiste. Mas não lutaste. Nem lá perto.
A tua vida começou a correr mal no dia em que lhe quiseste dar um rumo. Perdeste amores honestos, amigos sinceros e, sobretudo, deixaste escapar por entre os dedos a tua paixão. Vives remediada, acostumada, amedrontada, fazes questão de ser ignorante para não doer tanto, ne c'est pa vrai? Ranjo os dentes de frio e de excitação, vi a luz! A merda do problema não está nem nunca esteve nos outros, mas em mim. Ein, mas que grande velhaca me tornei... e a cada dia que passa cedo um pouco mais à frustração e torno-me mais amarga e solitária.
Vê este blog. Vê as pessoas que me liam. Desisti e também elas desistiram, e então fui destronada do palco e deixei-me ficar no chão. Estou a acordar, quero acordar mas sem amparo é difícil. Hoje é, das coisas que sinto mais falta é da minha arrogância e obstinação que nunca me deixavam desistir. Mas fi-lo um dia, e quando se cai e se é frágil a tendência é partir algo. Mas a minha raiva é uma luta constante contra o tempo. E contra o tempo ninguém vence.

23 Maio 2016

Música: The Killer's Vanilla, Amon Tobin

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Carta #3

Amo como um homem, jogo como um - check-mate queres? Deixo o teu rei avançar. Faltar-me-á paciência para seduzir? Óh meu caro, sem sombra de duvida.
Danço sozinha, danço bem. Danço sozinha, danço melhor. Fecho os olhos - o meu corpo vibra à semelhança das vibrações das colunas, tudo se compõe e estou de novo a beijar o linóleo. Toda eu sou música e tesão, independente de saber se está aqui ou não. Solidão? Não. Apenas alheamento propositado. Poucas palavras sairão da minha boca, terás que as arrancar. Queres que te massaje o ego? Claro. Queres que te ouça? Com certeza. Deita-te no divã que faço maravilhas. Sou a melhor psiquiatra de sempre. Amiga, peço perdão. No fundo, nem me importo tanto com mais nada.
Supra-autómato de emoções, aprendemos a fazê-lo nos joguinhos de teatro, em que em palco amamos e fora dele desprezamos. A carga de ter que representar na vida é dura, mas mais duro é esperar sempre pelo melhor. Godot. Daí depreendi que o melhor a fazer é sorrir e acenar e guardar a verdade amarga cá dentro.
Se te dissesse quem és... arrancavas o teu estômago pela boca de tão transparente me pareces. E é assim que te perco antes de te ter.

16 Maio 2016 - 22h25
Música - 1940, The Submarines

terça-feira, 10 de maio de 2016

Carta #2

Uma gargalha envolta em vómito curva-me. Anseio por um cigarro, tens?
Não, eu seu que não sou prefeita. Já o fui, e sê-lo acaba por ser aborrecido. Salto para não pisar o conteúdo dos meus armários que se estendem pelo chão. Não adianta meter tudo em ordem. Nem quero ordem, quero entregar-me ao caos pois ele leva-me nas suas aventuras loucas. Para quê o amor? Será apenas uma amarra, mordaça, cinto de castidade. Nada mais. O amor deita-se com o inimigo logo não o quero mais.
Sou livre dentro deste corpo que me prende. Não deixo de o ser. Nem as pessoas que passam pela minha vida me apanham. Não fujo mais de mim pois sei bem quem sou. Consciente, com um olhar cansado sobre as pessoas e as suas ligações, pairo sobre todos como se fosse invisível. Como que a fintar a chuva; acabamos molhados. A diferença é que olho para o céu para sentir com violência a queda das gotas que me arrefecem os glóbulos oculares.
Já aprendi a cair. Caio como os gatos, velozmente me ergo e sacudo o sangue das mãos. E, de cabeça baixa, olhos no céu, pairo sobre ti e sobre mim e sobre todos os outros seres e sobre todas as outras coisas pois uma vez não existi.      

10 Maio 2016 - 22h35
Musica - Burning Skies - Tones on Tail

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Carta #1

Fazes-me escrever. De novo o suplicio prazeroso da auto-mutilação cerebral. Esta é uma carta de amor. Uma carta de amor a um desconhecido, e quem ama o desconhecido não padece dos receios da vida comum. Então, rosto branco, amo-te ao ver a tua inexistência. Sabes, isso reconforta-me. Não sei lidar com o amor. Amo desenfreadamente, desesperadamente, destemidamente, e depois morre. Só não morre em mim. Ao olhar-te vejo-me tão pequena no brilho da tua pupila dilatada. Olhas-me de frente, como se de um desafio se tratasse. Penetro os meus olhos na tua nuca e violo-te sem dares conta. Faço silêncio e finjo que não sei como será o fim. E assim beijo-te a testa enquanto repousas no meu colo.
Os meus lábios estão sedentos. 
Os meus lábios estão sedentos de ti. 
Os meus lábios estão sedentos de ti em mim.
Vagueia no turbilhão dos teus pensamentos enquanto marcas o tempo com os teus passos. Dás-te conta de que os sapatos têm um peso enorme. Descalço-te e levo-te para a relva húmida. Fechas os olhos e sorris. É essa a imagem que guardo e guardarei. O amor é simples quando não se ama. E é essa a sua beleza. Nunca sentiste que estavas enamorado por nada? É ele, que rebenta do peito e caí na nossa boca.

Carta #1 – 4 Maio 2016 – 3.16 
Musica: Blond Redhead – Magic Mountain

sábado, 6 de junho de 2015

Portas abertas

Ohh yeahhhh, feeling good and god bastou abrir a porta, meter Doors para alegrar também os vizinhos e, ai tão bom, problemas? Para outra altura. Disse que não à medicação hoje. Ainda ontem estava pronta para me matar e hoje estou pronta viver, os desequilíbrios da mente são deveras interessantes, não para os estudo mas para os gozar (uma pausa - enquanto escrevo a minha gata coloca cada pata no tempo, como um metrónomo, na minha direcção. Instante deveras lindo e indescritível). Coloquei a mesa e uma cadeira no pátio (a gata da vizinha está adormecida no parapeito da janela e deixou cair o rabo que parece um furão branco ás riscas amarelas) virada para o jardim. A música é um dos principais motivos/ pilares da minha escrita, tenho-me apercebido disso. Está aqui sempre, para o bem e para o mal. Estou a pensar numa amiga minha de infância, a Anita, que sempre trabalho nesse ramo. E, como ontem estava a lamentar a minha vida numa conversa com ela, este post vai para ela. Porra, e eu odeio ouvir gente a lamentar-se - desculpa lá Anita, tens sido cinco estrela e de uma paciência invejável. Esperem por novidades :)

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Grito de exaustão

Mão Morta mood. Sinto-me morta há demasiado tempo. À minha procura, perdi-me. Vozes várias são pródigas a aconselhar-me, parece que vivo num inferno de palavras saídas dum reles audiobook. Tem que partir de mim, mas sinto que valho tanto quanto uma folha em branco rasgada. Estou morta. O que será pior, morrer ou viver com o medo?

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Karma

Tive a pessoa certa no momento errado e a pessoa errada no momento certo. O problema de estar no momento certo é que todas as pessoas parecem certas e nós é que estamos errados. Enganamos-nos a nós próprios. A queda na realidade é tão dura, e mais duro é procurarmos a pessoa certa nos outros. Receio que o amor já não me dê outra oportunidade e como castigo estarei para sempre só. É justo.