Pensamento crip, ou plasticidade cognitiva - (manhã) Dia 8

São 7h30 e acordei há umas horas de urgência de pensamento e, apesar de ter lutado para voltar a adormecer, não consigo deixar de parar de pensar. Talvez, ao escrever, consiga eliminar a urgência e dormir as poucas horas que ainda tenho disponíveis para tal.

Estava a pensar que o pensamento crip, que se desenvolve de forma pouco consciente, não é de fácil acesso a pessoas que não tenham experienciado contingências que o obrige a tal (e mesmo que passageiras, a habilidade de manter essa plasticidade pode perder-se à medida que não o precisamos de ter). Não é só "desenrascanso", é toda uma adaptação constante a um mundo e sociedade que não consegue entender (porque não está equipada para tal, e ainda bem) o esforço constante da improvisação - pensamento "obstáculo - solução" que tem que ser rápido. E porque tem que ser rápido? Porque significa ficar em risco muitas vezes. Como usar uma casa de banho que não é acessível porque é a única opção - repete ad nauseam e desenvolves um qualquer mecanismo que torne uma situação impossível possível (não confundir com desejável). 

Esta plasticidade permite até antecipar potenciais obstáculos e organizar a vida em torno dessa possibilidade que, muito provavelmente, se verificará em alguma potência. 

Esta plasticidade, e agora falo por mim, também me pode tornar pouco tolerante à falta de esforço do outro para ver (nem falo de compreender) o que é, para mim, óbvio. Talvez o que a minha terapeuta acha que seja rigidez cognitiva não o seja - os métodos de fazer e pensar usados são, para já, os que melhor me servem antevendo todo um espectro de situações passíveis de ocorrência aprendido na base tentativa erro. E, apesar de compreender que a situação A possa ser desoladora e carece de luto, o que não consigo compreender é a inabilidade de alguém para procurar recusos (porque nem todos dispomos das mesmas ferramentas) para contornar o obstáculo, ficando presa num "coitaditismo" de si próprio que não consigo tolerar. Ou seja, a minha tolerância vem, num primeiro instante, de dar tempo à observação do indivíduo perante o obstáculo e às suas tentativas (ou não tentativas) de contornar o obstáculo. E creio que reside aqui o meu problema com a "boa intenção". 

A "boa intenção", na sua maior parte, só "ajuda" quem se dispõe a ajudar sem consentimento. Ajuda não consentida é uma violação, e a extensão da minha compreensão sobre a necessidade dessa mesma "boa intencionalidade" vai depender do meu cansaço. As tais microagressões, que me obriga a estar constantemente equilibrada para não entrar em disrupção com o indivíduo. Isto é exaustivo e injusto.

O que também é injusto para mim é que não haja honestidade nos chamados "safe spaces". Eu quero a crítica mais que qualquer coisa, e compreendo que haja esta "regra nao imposta" da não crítica por qualquer motivo (i.e., porque não se sabe o que a pessoa está a passar, porque não se sabe como é habitar este corpo e etc). Eu faço a triagem do que é para mim numa crítica, mas ela tem que vir, não ficar presa naquele plano invisível do policiamento alheio do que é que pode ser dito a quem. Não sou uma criança, e mesmo que chore com uma crítica, tenho a habilidade de me recompor e preceber o que posso retirar (se posso retirar) de uma crítica.

Creio que seja por isto, também, que me faz entrar em conflito quando consigo preceber que algo está a ser executado de forma pouco ou nada pensada e quando solicito adaptação da outra parte (porque eu já estou a fazer a minha) e sou logo atirada para um local de impossibilidade ou negação sem espaço para negociação ou elaboração de um qualquer plano, me leva à desistência - recurso-me terminantemente a participação destas lógicas hipócritas de fingir que está tudo bem quando não está só porque alguém acima de mim e dos meus pares acha que está e que é desta forma que as coisas devem ser feitas para não ferir susceptibilidades. ARTE NÃO É O KINDERGARTEN, não o é para os normativos e não o deve ser para nós. Isto é equidade. 


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