Fazer para desfazer
A inquietude leva-me a isto, à compulsão. Estive a lutar hoje o dia todo para não escrever aqui. Acordei para um dia cheio de sol e cheiro de verão, abri as janelas para deixar entrar o calor - há falta do humano, do meu, aproveito o possível, sol ou fogo. Acordei bem, ontem estive bem também, feliz por estar em finalmente em casa. Saí ontem à tarde, para apanhar sol e para estrear uma máquina fotográfica estranha que comprei numa promoção num supermercado - prenda de mim para mim. Voltei a ver, finalmente, o Stewie - um gato preto com umas bochechas enormes - fiquei aliviada por o ver depois da tempestade. Sempre com distância, acompanhei-o um pouco, até que ele se meteu pelos canaviais e desapareceu. Notei-o mais cansado que das outras vezes. Não se deixa pegar. Ainda não chegou a minha vez.
Cheguei a casa cansada, a deixar o tempo passar mas eventualmente meti as fotos no diário. Pensei que quando morrer as pessoas que se cruzaram com os meus cadernos vão pensar que sou/ fui louca (talvez seja, ou talvez seja dolorosamente comum). Hoje foi um dia diferente. O meu ânimo esmoreceu à medida que fui ouvir música. Música, da vontade e da impossibilidade ou incapacidade, do medo ou vergonha, da solidão pura, dura, que fura por vezes, e olha - que deixe furar. Até o Stewie tem dias de pouco brilho mesmo com sol.
Para acalmar o pensamento, fui bordar - tudo o que tinha feito acabei por desfazer. Horas de trabalho, fardo de quem o tem.
Tenho pensado em parar de tentar. Estou cansada. Como se, para além do fardo que não cessa de crescer, estivesse constantemente a empurar uma parede para conseguir andar. Arte faz-se sempre, com ou sem espectadores. O palco faz-me ansiar por comunidade que não tenho, que perdi ou afastei, ou que a vida comeu. Dói-me pensar que as pessoas não se querem associar comigo (ou esta é a ficção que vivo com mais intensidade, restos dos mais de 10 anos de hiatus à procura de aceitação).
Não me devia queixar de todo e de tudo me queixo. Talvez seja do desencanto da idade, da ligeireza da imaginação que contrasta com o peso do olhar. Já não sei como ser humano, como é que as pessoas funcionam. Às vezes encontro outros tão inadaptados quanto eu e fica o laço - 1000, 3000, 5000km de distância - "vamos fazer coisas novas?", respondo afirmativamente porque é a minha vontade também, mas não é com vontade que se pagam bilhetes de avião. Estou muito cansada de empurrar a parede. Gostava de, por uma vez na vida, experimentar criar sem preocupações. Vim tarde para a festa, nem força tenho para a dança e estou anos-luz das tendências. Anos-luz de uma qualquer comunidade também.
Anos-luz de quem me tornei por força das circunstâncias e agora, sabendo de mim deixei se saber como ser com o outro. Talvez o melhor mesmo é não tentar mais e ficar em paz com isso. Não me assusta a mediocridade nem a falha, assusta-me não ter oportunidade de tentar (e já não consigo lutar muito mais). Talvez consiga encontrar algum toque divino na possível morte do meu computador.
Sinto falta do calor, mais que tudo, da leveza, da espontaneidade, e isto creio que não consiga fazer em português. Talvez de tanta rejeição em português não me consiga lembrar dos convites. Talvez nem saiba que existem convites, se os houver. Ou vontades. Não precebo meias-palavras, e com o cansaço da existência nem esforço consigo fazer mais.
Pelo menos esteve sol hoje, apesar do peso que se abateu. Fazer para desfazer o descontentamento. Para respirar e voltar a fazer com a delicadeza necessária, porque o pano fragilizou-se com a quantidade excessivo de tentativas de reparação. Talvez seja esse o caminho que preciso seguir por agora, estar.

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