A Tempestade - Dias 3 e 4
Dia 3
Acordei no início da madrugada com a clara noção que teria que ir para a Marinha. Deixei uma SMS e uma mensagem no whatsapp a informar a minha mãe que iria arrancar para lá entre entre as 16h e as 17h, porque ainda tinha esperança de voltar a adormecer. Não consegui. Vejo o dia a nascer e faço a mala (na verdade ainda estava feita da residência em Montemor-O-Novo), determinada a ir. Com o telemóvel carregado pensei em tirar umas fotos das moradas que as pessoas estavam a pedir e acabei por tirar o máximo que pude. Meti-me a caminho, estava a chover, azar fo caralho. Soube, na noite anterior, que existia um supermercado com gerador e marquei esse ponto de passagem para pedir para carregar o powerbank (o que possibilitava a probabilidade de ficar em casa). Fui andando e tirando fotos, com paragem no minimercado para comprimentar a Hidra (a cadela-mesa com patas fininhas) e acabei a falar com a dona também. Mesmo sem electricidade foi trabalhar. Os clientes vinham comprar água, atum, latas. Neles, um semblante pesado, de cansaço.
Segui viagem, a tirar fotos. Na rua vi pessoas ao telemóvel "tive que vir aqui porque em casa não tenho rede" dizia a senhora a quem estava a falar. Esse era dos principais motivos pelo qual não fui para a Marinha, lá não há rede (e com ela, acesso à internet).
Na fonte das 3 bicas estavam dois carros com pessoas encher garrafões de água, portugueses e brasileiros em amena cavaqueira. A solidariedade nasce sa partilha, vivências semelhantes. Senti um quentinho no coração ao assistir aquela cena, sobretudo sabendo que na vila, o partido facho ganhou (presidenciais). Há, também em mim, um pensamento, legítimo, que o que estou a fazer (tirar fotos) só benefícia quem tem lá uma 2a habitação, emigrantes, na sua maioria e, para além da abstenção dos emigrantes ter ficado a roçar os 90%, os emigrantes quando votam, votam (na sua grande maioria) no partido contra os imigrantes - para além de irónico, é ridículo. E porque caralho hei-de ajudar essa malta? Mesmo só o pensamento de pessoas com 2a habitação enoja-me, na verdade. No meu prédio há muita malta emigrante mas também há malta que mora em Leiria, tendo aqueles apartamentos como "apartamenos de fim-de-semana". Relembro-me que solidariedade também é isso, e que só com acção se mudam mentes.
Continuo e vejo o supermercado, lá está o gerador. Umas casas acima também havia uma uma com gerador, ainda equacionei pedir para deixar lá o powebank a carregar mas não consegui (pedir ajuda a estranhos é trauma). O facto de ser uma mega casa também me intimidou - penso agora que fui preconceituosa, porque parto do pressuposto que toda a malta com dinheiro é desprovido de empatia mas alás, isto será conversa para outra sessao de terapia (quando puder ter).
O supermercado tinha todas as janelas partidas, tapadas som com plástico. Só deixavam entrar uma pessoa na loja e, como tinha pessoas à minha frente, fui ver a loja do lado, uma loja confusa, como é costume lá, que vende um pouco de tudo. Descobri que tem uma parte de retrosaria, onde vendem tecidos e linha para ponto cruz, óptimo, porque quando saí das Caldas fiquei sem sítio para comprar estas cenas. A dona sa loja, uma senhora já com alguma idade, conta-me que as galinhas e o porco desapareceram na tempestade - veio-me logo à cabeça o início daquele filme que começa com um tufão e uma vaca a ser levada nele. Já tinha pensado no Stewie (um gato preto de rua que costuma estar na minha zona) e fiquei com uma certa angústia, vale-me o pensamento que os gatos pressentiram a tempestade antes de nós (facto - o gato dos meus pais e os da minha irmã passaram-se totalmente antes dos ventos) e se conseguiram esconder a tempo - deixei-me acreditar nisso.
Saio e ainda estão pessoas para entrar. O meu telemóvel está a ficar sem bateria e ainda quero tirar mais umas outras fotos antes de voltar para casa.
Chego a casa exausta e com muitas dores. Bateu-me com muita clareza que em 10 anos estou numa cadeira de rodas - estive só a caminhar lentamente e com paragens nem 1h30 (uns 2km no máximo) e estou a ranger de dores. Sentei-me a comer umas merdas que tinha comprado no minimercado mas a fome já vinha de trás e não seria umas baratas fritas que a matasse. Tensão baixa, como pude atestar pelas luzes e sensação de desmaio. Começo a pensar que tenho que descansar antes de me fazer à estrada.
Às 15h30 a minha mãe telefona-me "queres que te vá buscar?" (tinha passado num café onde viu gente ao telemóvel e aproveitou para entrar em contacto - ela não tinha recebido nenhuma das minhas mensagens, como receava) "daqui a meia hora estamos aí" disse-me. Arrumo o PC com o livro e os cadernos nuna mochila à parte, onde guardei a minha água (uma garrafa reutilizável) e pousei-a no sofá, enquanto preparava outras cenas. Volto ao sofá e levanto a mochila - água por todo o lado. Apresso-me a tirar tudo de lá e a secar o PC o melhor possível, que tinha água a jorrar de dentro dele. Arrumei tudo noutra mochila para a viagem e fomos rumo à Marinha. Semáforos desligados, muito trânsito, estradas cortadas. Os grandes painéis de metal com indicações rodoviárias totalmente trocidos, como que derretidos. Ao passar no centro da Marinha, um grande aparato policial em frente à câmara, onde muita gente estava sentada na Praça, onde fizeram um local de wi-fi. Vi um homem exaltado a gritar com a polícia, que não se moveu.
Chego a casa, ligaram o gerador e fui tomar um banho, um real banho, com água quente. Foda-se.
Saída do banho fui ver o computador - não liga, apareceu uma pequena indicação que ainda está vivo, mas foi só. Peguei no secador e estive de volta dele. "Como é que o computador apanhou água?" pergunta-me a minha mãe. Já sei o que ela está a fazer, está à procura dum culpado - "Fui eu, queres culpar alguém culpa-me a mim". Merda. Preciso do computador, é o que me safa no trabalho. Tenho lá coisas que ainda não tinha passado para a drive e pior, para o mês que vêm vou à Irlanda e tenho que o levar - ou outro, caso este morra - e apesar de ter dinheiro guardado para outro novo, fico na merda na mesma, tinha guardado dinheiro para pagar a minha parte para as obras do prédio, que começam em Abril, e o resto vai ter que ir para os danos da tempestade, que ainda não sei quanto me vai ficar, estimo uns 2mil no mínimo (e a possibilidade da parcela das obras do predio aumentarem por causa também da tempestade).
Ao pensar nisto fiquei zangada com o mundo, tento tanto, e apesar de ter tido mais trabalhos ultimamente, vêm com muito custo e continuo sem saber o que fazer, quais os passos a dar, se há passos a dar. Porque sim, ainda procuro trabalho regular e não me chamam. Sim, continuo a fazer candidaturas que não consigo. Nem tento a DGArtes. Tenho que emigrar, ser uma empecilho noutro país - pior é que até isso já tentei, mas eu preciso de trabalho estável para poder cuidar do que me resta fisicamente - não tenho qualidade de vida, e a menos que se dê um milagre (ou dois) não é esta a vida que quero continuar a ter, e à falta de alternativas abre-se a óbvia.
Desliguei o secador e embrulhei o PC, fui jantar - estava esganada. Nem energia tive mais para me debruçar no PC, caí redonda na cama às 18h30 e adormeci.
Dia 4
Acordei ao meio dia e meia, em dor. Aquela caminhada de ontem fodeu-me bem - nem que aguento em pé. A electricidade voltou hoje. Continuamos sem rede, mas com net já dá para saber do mundo e comunicar. Os meus pais foram lá a casa barrar uma janela minha, a que ficou mais frágil, porque domingo há aviso laranja para a zona - ventos com rajadas de 90km/h, ou seja, o que ficou fragilizado corre riscos que lixar. Só espero que a janela da minha varanda se aguente um pouco mais.
(Um à-parte - incomoda-me a utilização de fotos dos estragos que o pessoal anda aí a tirar com hashtags para engajamento nas redes sociais, esse incómodo nao é novo. Pergunto-me como é que esta malta consegue ter tempo e recursos para o fazer.)
Aproveitei para postar as fotos para os emigrantes e afins (sim, como partipante anónimo, por questões éticas e de segurança e já sei, ser ético é dos únicos luxos que me posso dar), e estive a falar com uma amiga de escola que me fez chegar pedidos que encaminhei para o pessoal das Caldas. Percisam-se telhas, muitas. Fiquei à espera que os meus pais regressassem para pedir boleia para ir ao partido (centro de trabalhos do PCP) onde estão a organizar uma cantina social, para me voluntariar. Chegaram por volta das 18h30, mas não consegui ir. Fisicamente estou um bolo.
Espero amanhã conseguir ir lá ao partido. Dá-me a sensação que há muito mais trabalho pela frente do que houve até aqui.
A rede chegou hoje, eram 23h30. Lá ainda não há nada, semelhante às vilas e aldeias um pouco por toda a parte. Já se começa a ouvir falar em roubos, também. Lisboa também só hoje é que acordou, foram alguns políticos a Leiria. Que estupidez. Que pessoas tão deslocadas da realidade. Auto-gestão sempre!


Comentários