Por fim, o aperto

Ontem acordei de manhã destinada a ir aos Montes (Real e Redondo) para ver se me podiam fazer o orçamento dos danos. Estas empresas não têm comunicações ainda e já contactei o seguro, então não tenho muito tempo. Sem muita energia, fui para o duche - começo a sentir falta de ar.

Isto não é novo. Descobri que o meu corpo também responde desta forma ao stress quando a minha Mimi partiu. 

Foi um esforço enorme para concluir o duche sem desmaiar. Não tenho conseguido comer muito, também. Sabia que isto ia cair, não sabia é que seria agora. 

A minha casa continua sem electricidade e, ao que soube, a água também se foi. Não tenho qualquer previsão de quando é possível voltar. O carro também ficou lá, mas isso nem importa porque tê-lo aqui iria só despontar mais stress. Ainda não chorei, porque não posso - talvez daí a falta de ar.

Sentei-me na beira da cama a tentar preceber o que fazer. A minha mãe vem ao quarto, provavelmente para me apressar, quando reparou que estava a falar com dificuldades.

"Não te preocupes, isto acontece-me quando estou ansiosa", disse-lhe. Ficou logo em cuidados. Não a queria alarmar, que isto não merece alarmismo. Preciso de tempo para mim, só isso. 

Os planos foram abortados porque não conseguia ir a lado nenhum. Se estivesse em casa seria diferente, mas aqui na Marinha estou dependente e sou obrigada a regular, não só as minhas, como as emoções da minha mãe. 

Na noite anterior tinha passado mais de meia hora a responder a um inquérito sobre artistas com deficiência, cujo prazo terminava no dia 27. O prazo para apoio a projectos da DGARTES foi alargado ate dia 3 de Março, se não me engano. Quando vejo no meu email outra oportunidade de residência com a mesma data limite, abateu-se em mim o resto. É muito e sozinha. E sei que não vou conseguir concorrer a nada porque o meu novo trabalho está dentro do computador que está há duas semanas no arranjo. Faltam menos de duas semanas para o próximo LAB e estou a viver com uma mala improvisada, dum lado para o outro. Sinto-me de mãos atadas, nem tentar consigo, e se não consigo tentar, sinto que estou a falhar, "preguiçosa". (Quero ir para casa.) (Quero partir para não regressar.)

Nem desnascer quero. Unplug. Unplug. Unplug.

O Nuno (o antigo colega de quarto que me salvou a vida) telefonou-me, como tem feito desde que esta merda aconteceu, agitado, a perguntar-me se podia ajudar-me nas reparações. Compreendo o sentimento dele. Disse-lhe que não podia fazer nada antes de ter um orçamento por causa do seguro, e que o que seria de maior urgência proteger já tinha sido protegido. Com sorte, só no Verão terei a casa arranjada (com muita sorte mesmo). 

Ainda estou a pensar nas perguntas do inquérito. "De que forma a tua deficiência se cruza com a tua arte?" (não ad verbum). Da mesma forma que ser mulher, ou ter nascido em Portugal. Eu percebi (creio) o que eles queriam saber com esta pergunta, e não é assim que deve ser apresentada - de que forma eu por ser eu consigo ser eu? Como se a deficiência fosse algo separado de mim. Outras questões como "porque te consideras artista" ou "podes dar-nos os nomes e contactos de outros artistas com deficiência" como se não pudessemos ter agências, como fossemos uma espécie rara. Não posso dar o contacto de ninguém porque não devo assumir que alguém tenha uma deficiência, independentemente que eu a possa preceber como tal. Esse inquérito foi, outra vez, bem intencionado e com uma enorme falta de noção. E, por muito que queira servir de ajuda, há alturas que não dá - esta, uma delas. Este mapeamento da zona centro surge agora porque tivemos um desastre? Com data limite de entrega para o final do mês? 

Noção 

Noção 

Noção 

(falta de) noção 

Estou é preocupada com a malta que ficou presa em casa sem electricidade, água e comunicações porque não há elevadores. Angustia-me que não haja nenhum registo desses cidadãos, que não há maneira de preceber quem precisa de ajuda. Isto é a invisibilidade que me preocupa neste momento. 

É fácil estar num gabinete numa qualquer universidade de Lisboa a parir inquéritos disfarçados dum qualquer motivo áureo. A ajuda não solicitada, que advém dos fundos europeus para a igualdade. Esse mapeamento já devia ter sido feito e se não, não o seria agora. E ficou claro para mim (e quero estar enganada) que aquele inquérito não passou pelos olhos de ninguém com deficiência. Como poderia? O acesso ao ensino superior está viciado, ou tens dinheiro para ires/ viveres para Lisboa e pagar belo por um mestrado ou doutoramento ou consegues preceber como conseguir uma da mão-cheia de bolsas que são atribuídas. E nisto, não conheço ninguém com deficiência que tenha conseguido uma bolsa de doutoramento. 

Para acabar, acabam de me telefonar de onde tenho o computador a reparar a dizerem-me que afinal o computador não tenha reparação mas que ainda vão tentar. Não tenho como comprar outro tão depressa. Sem computador não consigo trabalhar, concorrer a nada. Que angústia do caralho.

Dá-me a clara sensação que se fosse de classe média-alta 99% dos problemas que tenho agora não o iam ser. Talvez o meu médico me levasse a sério. Talvez tivesse o luxo de ter acesso a cuidados médicos indicados para a minha patologia. Talvez estivesse a tirar o meu doutoramento noutro país. Talvez seja por isso que aquele inquérito me caiu tão mal. 


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