A tempestade- Dia 5 e 6
Dia 5
Na minha casa continua a não existir água, eletricidade nem comunicações. Como vim para a Marinha tenho o privilégio de ter um certo conforto, banho e comida quente. Infelizmente também já há televisão também.
Hoje acordei e fui para o partido (quando me refiro ao partido, refiro-me ao Centro de Trabalhos do PCP), montaram lá uma cantina social, um local onde a população pode confeccionar refeições, receber doações de géneros e roupa que é dada à população, recolha de material de construção, entrega de comida às vilas mais isoladas e/ ou a pessoas em situaçãode vulnerabilidade. Vêm voluntários de todos o país com donativos também.
Do trabalho, há um pouco de tudo a fazer - comida, sandes, receber e colocar donativos à disposição. Há uma grande logística que é feita pelos militantes do partido nós somos só mãos - e há sempre o que fazer.
Começa-se a falar "há pessoas a aproveitar-se" e garanto-vos que não há. Vêm pessoas exaustas, com muita vergonha de pedir ajuda. Isso é uma constante entre pessoas, irrelevante da sua nacionalidade. Das pessoas que vêm, a maior parte são portugueses mesmo. E quando confrontados com estas "revelações" dizem que "essa pessoas ja deviam ter recebido o ordenado". Lá ajuda-se sem perguntas, gosto disso (e não esperava diferente). Também se ajuda sem câmaras - não vi ninguém de telemóvel em riste a fazer apelos nem denúncias - a Marinha a voltar a ser Marinha, como a conheci. O partido faz isto porque é ideológico, faz parte da formação destas pessoas e, apesar de não ser comunista (estou lá perto, uns graus mais à esquerda), cresci no partido e com esta malta, os meus professores eram quase todos comunas, o que influenciou. Nem os mais de 20 anos de ausência fizeram dissipar este sentimento.
Fui para casa às 20h30 e volto lá amanhã. Lembrei-me do meu PC mas isso vai ser um problema do eu de amanhã - agora só quero fazer calores e descansar.
Dia 6
Rinse and Repeat - acordei, comi, fui para o partido. Foi um carro hoje para a Vieira de Leiria e praia e eu fui com outro voluntário à Junta de freguesia do Coimbrão. O olhar das pessoas é muito idêntico quando se oferece um ouvido atento e uma tentativa de resolução, mesmo que não a ideal. Lá conseguiram criar uma cozinha comum numa associação, e os vizinhos estão-se a entreajudar na reparação do possível. A comuta dos habitantes a Leiria é longa por causa das estradas - leva-se uma hora e meia a chegar lá. A comuta para a Marinha é mais rápida e a população acaba por ir à Marinha. Das lonas que foram buscar ao estádio, restavam poucos metros às 16h da tarde. Perguntei para quando estavam a prever estabelecer um centro de apoio na Praia do Pedrógão, que será no mercado e abrirá amanhã.
Passamos na Praia do Pedrógão também, falamos com alguns recidentes. Lá a tensão é ainda mais palpável - uma parte da comunidade estava a preparar uma manifestação "para ver se a televisão vem". Que a Junta os abandonou assim como Leiria. Da câmara de Leiria nao sei, sei que é difícil que a Junta consiga fazer comunicados porque, uma vez mais, não há comunicações. Ao chegar à Marinha, com acesso à internet, fiz os pedidos de ajuda e informação destes dois locais nas plataformas que foram criadas na net (boa intenção mas não funciona nos locais sem rede, ou seja, as pessoas nao podem pedir ajuda, têm mesmo que ir lá).
Há muita descoordenação porque não há comunicações, e os que têm usam-nas para reclamar. Vejo a comunidade claramente dividida e os que estão a ser proactivos não se ouvem.
Passei a informação ao partido, que a recebeu. Talvez volte ao Coimbrão amanhã se conseguir ou caso se ache necessário - o material doado no partido segue uma lista de prioridades, sendo que a prioridade é o município. Ter ido ao Coimbrão fugiu um pouco, mas que nos prendemos a burocracias a ajuda fica centralizada e não escoa.
Ainda estive a ajudar e empacotar as refeições a serem levadas às localidades e pouco mais. Volto lá amanhã.
Começo a pensar que deveria trazer o carro comigo, estou cansada de depender de boleias, mas sei que trazer o carro é comprar uma guerra diária com a minha mãe e estou tão cansada que essa não é uma luta que tenha energia para ter.
O meu gerador já seguiu para a Vieira. O meu PC fez fumo. Lá um camarada disse-me onde o levar para tentar salvá-lo, a ver.
Isto não vai ficar mais fácil tão depressa. Dia 8 é dia de eleições e eu só me pergunto como é que as pessoas vão conseguir votar (porque algumas escolas estão sem condições). Deviam adiar as eleições para que pudessemos respirar um pouco ou o suficiente para ter energia para o fazer. Até nisso se vê o abandono, o que poderá fazer com que os indecisos, para desmostrar raiva, votem no coisinho ou votem em branco/ nulo (mal menor creio). Não consigo deixar de pensar que se Lisboa tivesse sido afectada as coisas seriam diferentes.
Acho que quando me meter no avião me vai cair tudo, estou dormente e em modo piloto automático. Desta ida deixei as decisões nas mãos da Carolina, que estou em falência. Se pudesse, não regressava.


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