A Tempestade - Dia 7 e 8

Estes dias passam-se semelhantes: troca de informações com o CT do PCP de Leiria e Marinha Grande via net, deitada na cama. Hoje acionei o seguro da casa, tenho que ir lá para ver se existiram mais danos. Queria ter conseguido ir ao partido mas não fui, estou exausta, triste, cansada. Anteontem acordei às 16h30 porque não consegui dormir muito bem. Hoje acordei cedo, mas às horas que os meus pais se levantaram a restia de energia matinal evaporou-se. Fui dormir depois de almoço e já acordei tarde, também.

Estou a evitar a todo o custo entrar em conflito com a minha mãe, e como estou cansada fico muito mais reactiva, então fico no quarto. Mesmo assim não consigo evitar comflito.

Saí do quarto para jantar e ela veio juntar-se a mim na cozinha. Estava a tentar responder-lhe a uma pergunta qualquer mas a televisão estava tão alta, com a máquina de pallets ligada que não conseguia pensar. Disse-lhe isto exactamente assim. Ela grita (porque não ha outra forma deles de fazerem ouvir) ao meu padrasto pada meter a televisão nais baixa ao que ele reclama, como reclama de todas as vezes,  que "está baixo" e tal. Ainda ouvi a clássica boca do "não estás habituada a estar com pessoas" e o mesmo pedido de clemência porque eles não ouvem bem - eu sei que não. Tentei explicar-lhe que se estou a fazer concessões da minha parte, eles poderiam fazer um pouco também, só enquanto jantava. O clássica² "achas que não te ajudamos o suficiente?" volta e eu pego no meu prato e vou para o quarto. Ela vem atrás de mim, bate à porta e entra sem permissão - provavelmente porque a casa é deles - a fazer a mesma pergunta "eu gostava de saber o que é que eu te fiz", pergunta-me.

Agora? Ontem? A partir de quando estamos a falar?

Tentei dissolver a tensão respondendo-lhe que não era sobre culpa, que não tinha feito nada e que não queria discutir.  Que podíamos conversar mas não discutir. Estupidamente deu-me a sensação que ela estava aberta a uma conversa mas ela só queria discutir mais.  Tentou lançar fagulhas umas 2 ou 3 vezes com comentários ocos de tentativa de resolução ou compreensão e a resposta que levou foi a mesma: "não quero discutir".

Quero ir para casa. Quero sair do país e ficar incomunicavel. Apesar de saber que ela se move na preocupação, move-se no controlo em igual medida. Creio que, à falta de netos, ela continue a boicotar todas as minhas tentativas de emancipação. É um afecto muito desajeitado e transaccional - ela sofreu com o meu avc e foi minha cuidadora e por isso tenho que baixar a bola e estar-lhe agradecida da forma que ela entende que devo estar. Eu, no meio disto, não posso ser a minha própria pessoa.

Agora só quero ir para casa, já que acalmar será difícil - tenho que ir procurar quem me faça um orçamento dos danos para enviar ao seguro, tenho que preceber se consigo salvar o computador ou não, tenho que arranjar uma mala ligeiramente mais pequena da que tenho para levar e prepararo material necessário (que algum tenho de comprar, não sei onde), os óculos vão ter que esperar.

Às tantas só me questiono, vezes sem conta, porque é que ainda insisto. Talvez vá, desligue o telemóvel e me premita a tirar o tempo necessário para mim, não sei como. O ano passado foi duro com muita luta pela minha autodeterminação e não quero ter outro assim. Na verdade, sempre que saí da Marinha era à procura disso mesmo, mesmo não sabendo. Já me aceitei, se os que estão ao meu redor não talvez, e sobertudo porque passaram 19 anos, tenham capacidade do fazer. Tentei. Não faço milagres.

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