Vão-se os ventos e as vontades - 18 dias depois
Este é o som que me acompanhou há duas noite atrás (sim, o meu estômago está numa jam inesperada). Finalmente consegui regressar a casa, a vila já tinha um gerador e, com ele, electricidade (e água). Creio que voltei na segunda ou terça feira passada, não sei bem. Cheguei a casa e fui tratar da roupa, limpar o estuque que tinha caído um pouco pela casa toda, no fundo limpar e arrumar o que não consegui antes da minha retirada. Preparei um banho d'alma, a ouvir John Cale. Fiquei só ali, a descomprimir (as dores de corpo e cabeça), a tentar aquecer-me do frio da humanidade - o meu calor não é muito, mas é o suficiente para me manter quente no meu tãoquerido isolamento.
Saio do banho ainda cedo, e volto para as minhas costuras. Não há muita rede aqui ainda, o que quer dizer que as circunstâncias dão-me o que preciso mais neste momento, que será silêncio. Nisso os bordados funcionam bem como escape criativo não ruidoso (para além do ruido ininterrupto dos meus pensamentos). É sempre bom fazer duas coisas ao mesmo tempo, que dão espaço uma para a outra, permitindo-me organizar pensamentos e executar, numa fase de pós-criação, um qualquer trabalho. A manualidade dum trabalho é um escape à sua premissa, creio. Gostava de apender mais, como um pouco de electrónica, tenho um fascínio sobre tudo passível de produzir som que não seja um instrumento, e que eu consiga usar (modo crip sempre activo). Para depois.
Tive apenas um dia ou dois de descanso, com pouco acesso à internet, geralmente nas primeiras horas da madrugada, que me permite responder a emails e pouco mais. Tentei contactar algumas caixilharias na zona e creio que ainda não têm comunicações também. Pouco depois o vento volta-se a levantar, não tanto como na madrugada de 28 mas o suficiente para me arremessar detritos às janelas. O ruído foi uma contante nesses dias, a par da intermitência (e subsequentemente cessação da electricidade). Ao fim de dois dias tive que voltar para casa dos meus pais, com comida descongelada e uma mala. Outra vez.
Na Marinha também não houve electricidade nessa noite, no dia 12 creio eu. O vento, pelo menos onde moro, estava entre os 45, 50km/h. O estado de alerta permanente não me deixou dormir. O rugido das estuturas, o abanar das janelas e dos estores, as portas que, mesmo fechadas, rugiam na fúria de se querem abrir. À coca da queda da varanda vizinha. Não foi só a Kristin no dia 28. Foi a negligência dum estado centralizado cego pelo lucro. "Privatiza filho, privatiza", dizia o Mário Branco no final dos anos 70. E a E-Redes "não consegue fazer previsões" e aceita-se. Aceita-se também que as pessoas possam esperar pelos apoios porque "devem ter recebido o ordenado".
Sei que o estado considera a sua população como um incómodo sempre que não esteja a produzir, este pensamento neoliberal cria "cidadãos de segunda", ao qual eu me enquadro e sempre me enquadrei porque não há trabalho honesto que faça alguém subir de classe e nem quero isso, esta falácia de classe é que divide a malta, não é por teres 50mil na conta que és rico (e não, os emigrantes não são uma ameaça, senhor de meia-idade com homossexualidade latente não-assumida).
Empurram as pessoas até ao ponto em que elas sentem que não têm nada a perder, e não há força maior que um povo sem medo (e com fome).
Comos estas DGArtes da vida cujo prazo de candidatura acaba hoje, alheia aos poucos artistas do Centro que ainda contam com esse apoio (não sou uma delas, mesmo que quisesse). A maior parte das associações e colectivos da região sofreram danos - mas não foi em Lisboa.
A urgência de que tudo volte à normalidade para continuarmos a produzir, lucro. Trabalhadores traumatizados porque o encarregado os obrigou a ficar nas máquinas a tirar copos enquanto o telhado voava. Trabalhadores repreendidos por se terem ido abrigar nas casas-de-banho. Trabalhadores que, no turno em que entraram às 21h, só conseguiram sair para casa às 11h porque as estradas estavam obstruídas. Patrões que se recusaram a falar com a Câmara e, quando obrigados, o fizeram fora da fábrica (será que não queriam mostrar as novas condições de trabalho?).
Ao mesmo tempo que desejo que tudo volte à normalidade, não deveria. Não sei para quê, mas não para o que estava antes. Lisboa continua sem preceber o que se passou e as implicações a médio e longo prazo desta tempestade. Não é só noção que falta, é humanidade. Talvez tudo mude quando se a extrema direita chegar ao poder e despir-nos dos nossos direitos - e aí, neu caro, nem os teus 50mil no banco te vão safar.
Quanto a mim, continuo sem a importância que me é garantida pela sociedade, como artista, mulher e deficiente. Não espero mais nada do que me continua a ser negado - direito à saúde, ao trabalho. Não quer dizer que não continue a tentar, mais como teimosia interna, mas tenho vontade de dar corpo, na medida que me é possível, a uma pequena alternativa escondida na vila - está a ser cozinhada esta sopa e passará para o papel assim que tiver o computador na mão. Sim, o meu computador tem arranjo! pela módica quantia de um gerador com gasolina e óleo.

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