A troca
Não consigo dormir, ralada de ralar, sem saber muito bem se confio ou não, se vale mesmo a pena trocar esta liberdade e o que me resta da espontaneamente da palavra por algum alívio. Explico.
Fui ao médico hoje, com as queixas de anos, agravadas por negligência e ignorância (minha e do sistema). O cansaço e a dor que me pega ao acordar e me embala por horas sem fim até que o corpo ceda. Tudo requer um esforço desmesurado, das mais complexas às mais simples. Tomar banho deixa-me exausta, trabalhar no pc deixa-me exausta, o corpo pede repouso insistentemente e, quando em repouso, dor. Tudo tem que ser planeado de véspera no mínimo, um café ou uma ida ao supermercado. A vida social morreu há muito porque desapareci, não porque quis mas porque não consegui acompanhar o passo e o peso.
Há anos que me queixo, há anos que o meu médico me manda tomar umas vitaminas ou relaxantes musculares que nunca fizeram nada. Fisioterapia já contraproducente. Anos. Enviei-lhe um email com o resultado das análises que a outra médica me passou e escrevi, pela enésima vez, "não tenho qualidade de vida". E acrescentei, pela primeira vez, que sabia que não era comum que alguém viva "mais de 18 anos com sequelas de avc em idade activa". Só valemos quando produzimos, e o sistema nunca me deixaram produzir, então "produzo" eu, mesmo que todas as horas de trabalho não se reflictam, não se vejam. E se só eu estiver na floresta para ouvir a árvore cair, será que caiu?
Fui a pedir que me reencaminhasse para a fisiatria em Alcoitão, para preceber, porque têm muitos outros exames de diagnóstico no que respeita às sequelas de avc, e ele, como da vez em que fui a Alcoitão fazer o teste de mobilidade (adaptações para o carro) não faz ideia de nada. Não sabe como me encaminhar, não sabes dos exames, não sabe que 18 anos de sequelas são outras sequelas também. Então passou-me medicação, mais medicação, desta feita para as tonturas e outro antidepressivo que actua no sistema nervoso central e que e prescrito para a dor neuropática, que (creio eu) não e a dor que padeço. Daí falar na possibilidade da minha liberdade na palavra, que reencontrei no desmame e, que apesar de poder não ser de uma eloquência sublime, são o máximo de registo que consegui colocar aqui até agora - no início e agora, pois no meio vivi amorfa entre anticonvulsivantes desregulados, antidepressivos e outros que nem me lembro mais - um nevoeiro químico no meu cérebro, a Sarah Kane escreveu melhor (e olha como ela acabou). Não quero voltar a isso a título experimental.
A troca é simples, liberdade de pensamento pela possibilidade de alívio físico e, honestamente, não sei que escolher.
Às vezes, nos meus banhos de imersão, destapo o ralo ainda deitada, e à medida que a água escoa, sinto o peso do corpo a retomar a si, com o seu peso imenso que me cola à banheira. Não é uma experiência agradável, é dar corpo à memória do coma.
Não quero atirar medicação para sintomas com base no "acho que". Fui pedir-lhe ajuda e ele não soube dar-ma. Não sei o que fazer mais, não tenho força para procurar alternativas e estou completamente sozinha nisto - sempre estive.
Lamento não ter coragem para mais nada, também. Falhei sempre e a cada passo, porque não conheço o caminho (e não tenho dinheiro para apanhar o autocarro). E o futuro afigura-se bastante pior.

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