"De repente, senti o meu corpo como uma massa imensa, inquebrável. E nos meus ouvidos, a Piaf sussurrava qualquer coisa que não consegui entender. (…) Trouxeram-me o casaco que não vesti, quase não conseguia mexer-me. Depois, fui para o carro; fiz a viagem num estado de alerta sensorial, como se os ruídos me tocassem. Em casa, veio o banho, e foi como se tivesse saído novamente do útero da minha mãe".
"Dissertação Sobre a Vaidade", performance, dia 3 de Dezembro de 2006
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Quarenta
Ouvi esta música há pouco tempo, não me lembro de quanto tempo passou desde que a ouvi. Provavelmente estaria numa das mixtapes da minha irmã, e nunca mais a tinha ouvido. Ando agora a fazer o mesmo que em criança.
Ontem fui à lagoa, numa tentativa de desviar a tristeza. Conduzir acalma-me. Fui na esperança de nadar, mas a lagoa está anormalmente cheia, apodreceu as plantas e criou um mega ecossistema - milhares de girinhos, em várias fases de desenvolvimento, aquecem a água, pintando a areia de preto. Alguns sapos, já formados, andavam à beira da água. Nem uma mão cheia de crianças estavam lá também, com pequenas redes, à pesca de não-sei-o-quê. Estava calor, sentei-me um pouco à sombra.
Também à pouco tempo voltei ao cemitério da Marinha, coisa que já queria ter feito há muito. Quando era miúda passava tardes lá, o pai de uma amiga minha, a Bárbara, era coveiro e, volta e meia dava-nos umas moedas para irmos comprar um gelado, e voltavamos para o cemitério para o comer, sentadas numa sepultura. Outras vezes ia sozinha, porque tinha feito um amigo lá, não tenho a certeza do nome mas acho que era António. Ele, claro, era a memória de alguém que morrera nos anos 70, não sei precisar. Costumava apanhar flores silvestres no caminho, e deixa-lhe uma flor depois da visita. Eu não teria mais que 10 anos. Queria voltar lá para ver se o encontrava. O cemitério parecia muito maior quando o frequentava. Não o encontrei, também não tive muito tempo para procurar. Com a tempestade muitas lápides estavam partidas. Algumas fotos dos defuntos já não estavam perceptíveis sequer e só consigo encontrar o meu amigo pela foto dele. Morreu novo, com 30 ou 40 anos segundo o que me lembro. Na foto dele, tipo passe, um sorriso meigo e um olhar vivo, cabelos lisos compridos, pretos. Não sei sobre o que falávamos. Com o tempo deixei de o visitar porque já não tinha as tardes tão livres quando passei para o 5. ano. Foi um abandono gradual e não intencional, e nunca me esqueci dele. Tenho que voltar lá, para ver de o encontro - quero muito encontrá-lo. O cemitério em si é provavelmente dos mais bonitos que já vi, e já vi muitos.
Tirei esta foto porque encapsula bem tudo o que tenho vindo a pensar, a escrever, a fazer. Sem querer, reforça uma decisão que ando a evitar fazer. Quero genuinamente desistir, estou cansada. Ao mesmo tempo não quero, mas é muito difícil fazer o que gosto de fazer - talvez não seja para mim, e não é definitivamente para mim tudo o que tenho que fazer para ter uma oportunidade. Estou ainda cansada da ida a Dublin, fui para Dublin cansada da tempestade, enfrentei a tempestade cansada de Montemor e, antes, cansada estava das idas a Lisboa e etc, etc. Este cansaço não é normal, estas dores também não e vivo isto já há tanto tempo que já não me lembrava de como era apenas há uns anos atrás.
Sei que a minha visão é dura, perfeccionista, pouco tolerante comigo. Vai acontecer nem que seja puxado a ferros, e é o que tem acontecido. Tenho um medo legítimo de pedir colaborações porque sei que muito provavelmente não vou conseguir apoios, e todos temos contas a pagar. Tenho uma cena minha já agendada para Junho, e outras duas com colegas, e acho que chega. Ando a enganar-me a dizer que concorro para o ano mas não vale a pena. O Miguel diz-me para escrever um livro, mas não sou disciplinada o suficiente para o fazer.
Hoje é o meu quadragésimo aniversário. Pensei que o celebraria em viagem, era esse o desejo, mas o tempo passa cada vez mais rápido, a inconstância é cada vez maior - de todos os cenários possíveis, não contava com este e creio que seja um prenúncio do resto. Não fui viajar, não fui para o spa, não fui almoçar com a família, só eu e o vento que bule lá fora. Surpreendente foi uma circunstância agradável, não tenho tido muita energia para deveres sociais mas sei que, muito provavelmente, será assim nos que virão.
Se me encontrasse sentada numa campa com 8 ou 9 anos, juntava-me só para dizer-me
"Tentei muito Né, mas falhei. Desculpa-me."
Dar-me-ia também uma moeda de 200 escudos para espatifar na loja das gomas, no centro comercial, como recompensa imediata pelo que eu sei no que aquela criança estava fadada. Não lhe ia dizer que nenhum dos nossos sonhos se ia cumprir. Não podia.
A verdade é que não era suposto estar viva, talvez este tempo extra seja purgatório. O tempo, realidade, vida não parecem o que aprendi que fosse. Não sinto que seja o que era suposto que fosse. Talvez seja altura de me render, ver os girinhos para sapos, ver as minhas meninas crescerem ainda que à distância - à distância de uma realidade, até que elas cresçam e entrem para o 5. ano e se esqueçam da tia, como é natural que aconteça.
E, quando chegar a hora de falar com o meu amigo de infância, não vai importar se a minha sepultura foi abandonada ou não, até porque, muito provavelmente, serei eu a ter que planear o meu funeral.
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