Enquadramento artístico 15 anos depois
Muito se passou desde que fui aceite na London Academy of Music and Drama (que não pude ir) e agora. Uma suspensão do "palco", não necessáriamente da arte por completo e definitivamente não do pensamento. Muita coisa se faz mesmo sem materialidade.
No rescaldo da residência em Montemor, a par com a minha ida a Dublin, com conversas ainda bem vivas na minha memória, assim como a procura de termo que definisse de forma mais concreta o que é isto que faço agora em palco. Tenho andado a estudar às cegas, à procura do termo, do rótulos, não porque senti vontade mas porque me provocaram necessidade.
O tempo que tenho tido para me debruçar sobre estas questões é atropelado pela minha necessidade de me preceber enquanto pessoa com deficiência nas artes, também não por inquietação minha mas porque me têm sido arremessas práticas e preocupações das mais diversas possíveis sobre elas - tive que digerir muita informação e chegar a algumas conclusões, que tornam o caminho mais claro e, espante-se, a deficiência é algo que não define a minha prática, apenas faz parte dela porque trabalho com o corpo. A deficiência tem sim peso quanto ao acesso a oportunidades e ao Tempo (de criação, produção), que não se alinha com o institucionalizado e também com o Isolamento que o olhar sobre a deficiência me obriga.
Quando entrei para a LAMDA entrei para o curso de teatro físico, isto em 2007. Tive um outro tipo de curso, quando acordei nos Covões e nos meses/ anos que se seguiram - na impossibilidade de comunicar, muni-me com tudo o que tinha, que não era muito - meio corpo e cara. Da boca, só saía ar. E como, à falta de voz e escrita, te expressas? Não apenas "sim" ou "não", o sobrolho levantado em resposta a uma provocação ou o supriro em resposta à insistência. A dança dos glóbulos oculares como código de que alguém que estou a ouvir na sala que venha ao quarto. Os códigos sublimes aprendidos e partilhados como outra língua. Sem pensar muito nisso e por necessidade, fui-me afastando do teatro físico, não por ser físico mas por ser teatro.
Quando volto para o mestrado, já em 2009, não era teatro que queria, queria experimentar o meu corpo novo, a minha voz nova que não eram harmoniosas nem bonitas, eram únicas. A minha curiosidade foi rapidamente esmagada por expectativas alheias. Da bolsa de ar que encontrei na Latvian Culture Academy, onde pode experimentar sob o olhar atento e curioso dos colegas e professores, a volta a Portugal cimentou uma crença, primeiro imposta e depois assimilada, que o palco não era sítio para um corpo "corrompindo". E segui a tangente que não queria mas que pensei que fosse o melhor a longo prazo. Nunca acertei nos meus planos longo prazo porque não era aquilo que queria fazer, mas aquilo que achava que os outros queriam que fizesse.
Se uns negavam que fosse deficiente, outros pontuavam essa diferença. Nem bullying era. De 2012 a 2014 fui repetitivamente humilhada por colegas, funcionários e professores da Escola de Hotelaria e Alojamento de Faro, onde me lembrei de ir estudar Gestão Hotelaria, porque acreditei no que os outros me disseram. Sozinha esses dois anos, longe da minha rede, a lutar com a epilepsia descontrolada, não desisti por promessa a uma colega que desistiu. Devia ter desistido.
Volto para a Marinha com a vaga esperança de estar habilitada para outras profissões - habilitada estava, mas "a recepcionista é a cara da empresa" e creio que não tinha a "cara" desejada.
Volto para terminar o mestrado em 2016 e ninguém sabia o que fazer comigo e nem os 17 valores de tese me abriram portas. Outra vez. Depois consegui o meu primeiro contracto a termo no Centro Cultural e Congressos das Caldas, em 2019. Aprendi que o meu lugar na sociedade é para fazer pouco barulho e agradecer todas as migalhas que me são atiradas. Nessa altura já a minha pele estava curtida, e atrevi-me a lutar pelos meus direitos.
Vem a abençoada pandemia e pude abrandar dum tempo que não era o meu. Pude ler e preceber que ler é difícil, procurar outros métodos e apoios acessíveis à leitura, e ai fartei-me de ler. O corpo já meio em declínio, pode repousar. E aí, o contacto da Diana, no momento em que já me tinha abandonado de quaisquer expectativas, desejos e medos.
Volto ao palco sem nada para além de vontade de criar, ressacada de comunidade. E se hoje a vida possa parecer fácil, não o é. Nunca foi. Prendo-me ao que considero justo numa existência que nunca o foi. Quero fazer porque não quero falar. Quero fazer porque se falar tenho piedade garantida. Quero ir para palco porque quero comunicar, ser radicalmente eu e sei que só lá se esquecem que sou deficiência, porque a mensagem é mais importante que as minhas "falhas" - por isso não gosto de ver material de apoio em palco a menos que o artista tome essa decisão, especialmente a ser usado por normativos como prop "olha o quão inclusivo somos!". É como dizes duas vezes o mesmo, como o Miguel nos dizia. E é uma clara pornografia, semelhante aos freak shows e zoos humanos.
E, de volta à minha biografia, que foi feita meio à pressão em 2022 e pouco mudou, com tudo isto que se têm passado e tenho pensado, ouvido, testemunho e estudado encontrei, pelo menos para já, o termo de melhor define o meu trabalho.
Daniela Morganiça, Dramaturgo Corpóreal e Performer - não dramatugo físico, nem de movimento nem de corpo.
Não conto que o caminho fique mais fácil. Às vezes os rótulos servem como ponto de partida (nunca devem ser os de chegada). Talvez daqui a um tempo seja outra coisa qualquer.
Tenho muito por escrever para o meu próximo trabalho, também.
O Tempo. Comecei a escrever este post às 7 e pouco e são agora 9h45. Outro apontamento importante, etimologias à parte, quando digo que sou deficiente é porque o sou. Não-eficiente num país que vê a arte como produto de consumo. Espectacular. Três meses de ensaio para três apresentações ao público e a seguir querem algo novo. Sempre o novo, quando o antigo não teve tempo de se desenvolver. O espectáculo tem que ser espetacular, provocar emoções e não pensamentos. Estou, como sempre, um pouco alheia a isso, não só num Tempo paralelo como numa Realidade paralela. Se o Tempo comanda a Realidade (8h trabalho, 8h lazer, 8h descanso) é apenas normal esta desconexão. Produção, é preciso produzir, dinheiro, tempo é dinheiro. Tempo é Realidade. Escolhe o teu, já que a escolha se fez por mim.

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