Radical Kindness

Tenho falado, escrito, pensado sobre o Amor enquanto arma revolucionária, e ao tentar explicar, falo sobre radical kindness. Tenho tido dificuldades em encontrar um termo semelhante em português - bondade radical não tem o mesmo peso porque na língua portuguesa está, mesmo que inconscientemente, ligado ao catolicismo.

Radical Kindness é um estado ou uma forma de lidar com o mundo (e connosco próprios também) que não pressupõe nada, ou existe um esforço na não presunção do outro. Em que estamos completamente abertos a ouvir, receber, conversar durante um período de tempo, mesmo que o outro não partilhe dos mesmos valores. Radical kindness será, então, uma predisposição a ouvir o outro sem julgamentos iniciais nem procurar soluções ou defesas. Sem argumentação inicial, estar só presente, a ouvir. E a ouvir toda a gente.

Esta predisposição na escuta tem o fim em si próprio, não tem em si o desejo de ouvir para convencer ou debater. Pode existir argumentação, desde que se sinta que ambas as partes estão a ganhar algo com ela. Quando isso deixa de acontecer já não é radical kindness, é apenas guerra de ego, que se esgota ou alimenta a si própria. 

Essa predisposição deve estar despejada de ego e de preconceitos o mais possível. Difere da naiveté porque deve existir a possibilidade de parar e cortar contacto, sem culpas, se os valores não se alinharem. Nesse sentido, essa predisposição está paralelamente ligada à honestidade.

Não intende mudar ninguém ou fazer com que o que achamos é correcto ou queremos que o outro faça por nós/ connosco. É saber quando parar e abandonar, sem medo da perca. E estar de braços abertos caso o outro queira voltar - de novo, para ouvir. E caso o outro não tenha desafiado os seus valores que chocaram da primeira vez, abandonar de novo.

Não cuida das regras pré-estabelecidas, é exactamente o que é - ouvir, falar, avaliar e avançar ou abandonar, com honestidade com o outro e para nós. Dizer o que se pensa com cuidado mas sem desvirtuar o sentido. Ouvir, tentar preceber o outro lado como se estivéssemos nele e decidir. Pegar na informação que nos é comunicada ao longo de algum tempo e ser honesto quanto às expectativas criadas em conjunto. Nunca começar com nenhuma, porque a expectativa mina o discernimento. É dar uma folha em branco ao outro para que ele faça o que entender (e fazer a sua recolha, caso haja um interregno ou um final).

E isto não é inócuo. 

Agora só tenho que encontrar a designação mais fiel em português. O resto desta saga de pensamentos presos aqui há anos irão sendo compostos aqui, em hemorragia, como nota pessoal partilhada, para compor mais profundamente noutra altura, quando me perguntam como é que o Amor pode ser rebelião.


Comentários

Mensagens populares