quinta-feira, 5 de maio de 2016

Carta #1

Fazes-me escrever. De novo o suplicio prazeroso da auto-mutilação cerebral. Esta é uma carta de amor. Uma carta de amor a um desconhecido, e quem ama o desconhecido não padece dos receios da vida comum. Então, rosto branco, amo-te ao ver a tua inexistência. Sabes, isso reconforta-me. Não sei lidar com o amor. Amo desenfreadamente, desesperadamente, destemidamente, e depois morre. Só não morre em mim. Ao olhar-te vejo-me tão pequena no brilho da tua pupila dilatada. Olhas-me de frente, como se de um desafio se tratasse. Penetro os meus olhos na tua nuca e violo-te sem dares conta. Faço silêncio e finjo que não sei como será o fim. E assim beijo-te a testa enquanto repousas no meu colo.
Os meus lábios estão sedentos. 
Os meus lábios estão sedentos de ti. 
Os meus lábios estão sedentos de ti em mim.
Vagueia no turbilhão dos teus pensamentos enquanto marcas o tempo com os teus passos. Dás-te conta de que os sapatos têm um peso enorme. Descalço-te e levo-te para a relva húmida. Fechas os olhos e sorris. É essa a imagem que guardo e guardarei. O amor é simples quando não se ama. E é essa a sua beleza. Nunca sentiste que estavas enamorado por nada? É ele, que rebenta do peito e caí na nossa boca.

Carta #1 – 4 Maio 2016 – 3.16 
Musica: Blond Redhead – Magic Mountain

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