O Beckett era um idiota privilegiado. Esta ideia romanceada de falhar e continuar a falhar para "falhar melhor" só pode ter vindo de um homem que teve tempo para falhar sem se preocupar em meter comida na mesa. Ideia perpetuada por outros idiotas como ele, que na busca de qualquer semblante de esperança murmuram consigo próprios "pelo menos tentei". Eu sou uma deles.
Fará hoje, às 21h30, 19 anos. Escrevo em casa do Nuno, o antigo colega de casa que, em 2007 me salvou a vida. Às vezes penso que teria sido um bom final.
Ontem tive ensaio aberto de uma criação nova, uma performance duracional. 6h. Fui exausta, estive exausta, voltei exausta e estou exausta. A minha amplitude sentimental tem sido esta oscilação entre a exaustão e a dor, nem energia tenho para a raiva, só para o desapontamento. Cheguei a casa ontem e toda eu era uma chaga. Acordei às 5h30 da manhã com as dores. O desafio foi concluído, e só isso importa. Não tenho ainda nenhum feedback do público e, honestamente, acho que isso não importa - não procuro elogio nem reconhecimento, nem sei o que fazer com um nem o que o outro é. Fica na memória o headbutt da Maria e o sangue da Maira.
Como sempre, desde o iniciozinho, o melhor é o banho, seja da tinta, do frio ou da terra - o lavar pós-performance, como se tivesse acabado um livro. Este, que foi ensaio aberto, não vai voltar a ser apresentado. Não vai estrear. Não era essa a ideia inicial mas faz todo o sentido agora - a performance que era processo, anti-espetáculo, não capitalizavel enquanto produto, sem apoios para além dos outros artistas que deram uma mão e do próprio espaço, que abriu a porta e ceceu pessoal.
Afonso.
Alípio.
Beatriz.
Francisco.
Gregório.
Roberto.
Obrigada.
Acabando os compromissos que tenho ainda este ano, vou parar. É simplesmente incomportável.
Do dia 17 gastei 110€ em 10 minutos. Fui a um novo neurologista. Saí de lá com pedido de TAC para descargo de consciência (não tenha tido eu um AIT) para confirmar ou eliminar essa possibilidade para esta total exaustão e falência. Se fosse Beckett não tinha chegado a este ponto, ou talvez tivesse sido levada a sério quando comecei a queixar-me aos medicos - há 2 anos atrás.
Quando chegar a casa vou aceitar a troca e tomar a merda do antidepressivos que o meu médico me receitou para as dores. O mundo e a minha cabeça são demasiado pesados para mim - que venha a "lobotomia química", como disse a Kane, que a vida não se suporta sóbrio.
"You should write a play", disse-me a Maira ontem. Ninguém sabe de onde ela teve a informação sobre performance, sobretudo porque foi pouco divulgada e ela foi ao espaço de propósito para participar. A Maira é uma advogada de Cork (Irlanda), cujas filhas trabalham em Lisboa. Veio de férias, ver as filhas. Energética, irrequieta, alegre - um claro contraste entre as mesas. Falou-me do Boal assim que se juntou a mim. Falamos de política e (sobre os apoios à) cultura que, já sabia, a diferença entre Portugal e Irlanda cabem 100 anos.
Disse-lhe, como tenho vindo a pensar e partilhar, que a arte fazer-se-á sempre, independentemente de tudo. Para mim, o melhor último espectáculo que assisti foi quando abri a janela da sala e fui inundada pelo cheiro a camarinhas - estava lá, todos os anos por séculos, faz a sua temporada e parte, até o ano seguinte. Isto é arte, sem que precise de público nem reconhecimento e, à semelhança desta, experiênciei outras tantas, que me ficaram na memória como filme. Estou bem longe de poder causar efeito semelhante com o que faço. Não é uma competição, é contemplação.
Hoje tenho que voltar ao espaço, jantar comunitário "com a artista". Continuo sem me conseguir identificar como artista, parece-me desonesto, mas sempre senti dificuldades em identificar-me com algo. Gosto de bicho, que me faz lembrar os bichos da conta que sempre amei tanto.
Faço 19 com mais de 6 horas de trabalho comunitário, como querem - "eles vão gostar de ter um trabalho, faz bem para a auto-estima deles", li N vezes nas redes. Não adianta. Tentei, Santo Beckett, posso desistir agora? Posso voltar ao entorpecimento criativo e existir apenas? Corpo presente até que possa ir? Deixo a luta para os que sabem e a conseguem fazer.
Lamento.
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