Todos somos bons
Bondade perfomativa - quanto sofrimento é passível de ser tolerado? A procura de uma cura que não existe, a necessidade da cura para tolerância social. A alternativa, ao não corresponder ao sofrimento tolerável é o isolamento. A boa intenção não contempla sacrifício nem é sinónimo de tolerância.
Bondade não é tangível, justiça é. Igualdade não é sinónimo de justiça também. A identidade afirmada é sinónimo da vontade de se ser, não de se ser.
A sociedade não tolera vulnerabilidade, doença, talvez porque a sua existência serve como lembrete da nossa humanidade e, com ela, mortalidade. A identidade surge como uma rebelião ao modo social de produção e, com ela, perfeição. Que a identidade funciona como apaziguamento da responsabilidade da falha, do desencanto pessoal de não corresponder às próprias expectativas.
Exaustão moral - todos acreditamos ser bons, end of story. Não há espaço para outra consideração. De outra forma ser-se justo é diagnosticável. O mundo está podre e sempre esteve. O ser humano não evoluiu, só a tecnologia. Crueldade ganha outra designação, venda de narrativas aceites. E isto somos todos. Lembra-me "O Idiota" do Dostoievski, aceita-se que todas as relações sejam transaccionais. Michkin é socialmente inadaptado, logo rotulado, e nem ele, na sua imensa bondade, consegue ajudar ninguém. Bondade não muda sistemas de opressão instituídos. Até os sistemas de opressão são feitos por pessoas bem intencionadas.
O correcto não o é. É uma construção. Ser radicalmente bom não produz resultados porque não é esse o intuito. Escutar. Estar presente. Não tem propósito para além de si próprio.
Integração é uma performance, uma pornografia. Instituições em conferências para masturbação do ego. Baile de máscaras.
Todos somos bons e virtuosos, até (insert here boundary).
Todos somos bons.

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