Vida contabilística

Sim, volto para um quase lamento ou reclamação que, ao fim ao cabo serve para expor a ginástica mental que tenho que fazer SEMPRE que saio de casa, e há anos. Para que fique registado também, para memória futura ou não.

Tenho tido precaução em usar rótulos enquanto não tenho (se tiver) diagnóstico, mas como já tinha referido estou a passar um percalço de saúde que me obrigou a procurar ajuda, respostas e métodos ou medicação para me ajudarem. E, apesar de parecer bem, só mais cansada, se estou com alguém já me preparei para tal. Porque não conheci ninguém que não minimizasse os sintomas ou que se abstesse de falar em possíveis causas e soluções, que também minimiza. Também há os que, com agência, me dizem que também vivem com isto tudo e que conseguem de alguma forma dar a volta. Infelizmente nem força tenho para dizer que não estou em competição. Nunca estive.

Um exemplo prático, que se repete há anos e tem vindo a piorar, daí ter dito à Maria que

A espontaneamente tem um preço.

Vou-vos falar desse preço.

Imaginemos que sei de um concerto numa cidade proxima, talvez a 30km. Marco no calendário como marco tudo, hábito ganho na fase aguda do avc que ne tem salvo imenso, sobretudo agora que não consigo reter informação. Desta feita meti um lembrete dois dias antes da data, para garantir que conseguia tratar da logística (como hipótese de transporte ou boleias ou mesmo passar a noite na cidade, numa qualquer pensão). Podia ir de carro também, mas na verdade ainda não ultrapassei o medo de conduzir à noite por causa das luzes, sobretudo agora também. Tentei organizar o melhor possível sabendo que, em última instância poderia chamar um taxi e rezar que atendesse (sabendo, de antemão que me sairia caro). Mas pronto, estava disposta a tal - adoro a banda e, apesar de ir tocar ao ar livre seriam só umas horas de dor, cansaço e estímulo. 

No dia seguinte calhou receber visitas, malta que não via desde que saí das Caldas. Programa simples, almoço no café, passeio na praia e ida à lagoa. Voltei a casa às 18h, estímulos minimos, conversas sem sobreposição. Tinha nadado um pouco, apenas. Antes deste convívio (que foi bem programado) só tinha saído de casa 4 dias antes para ir fazer o exame que fora desmarcado (infelizmente já estava na Marinha porque tenho que fazer este exames descansada o mais possível para não o ter de fazer em dois dias, que me ia obrigar ou a pernoitar na cidade da clínica ou voltar para a Marinha - nada ideal).

Acordei hoje com um sentimento pesado, cansada. Fiquei na cama mais tempo que o costume a tentar ganhar alguma energia, que não veio. Subitamente atravessou-se um pensamento intrusivo - "não vás", o que me aliviou e angustiou ao mesmo tempo. Então parti para as contas de cabeça e cenarios possíveis, como de olha para um mapa para avaliar o caminho mais indicado para a nossa conveniência.

Conheço esse festival o suficiente para poder traçar uma linha de prós e contras e cheguei à conclusão (porque já sabia só não tinha pensado muito nisso) que o festival não é acessível e nunca foi - a acessibilidade faz-se presente apenas quando os concertos são nos teatros. Depois pensei em rodos os anos que fui (quase todos) e como me senti no final. O esforço não compensa o prazer porque é impossível sentir algo quando estamos em dor.

Decidi não ir, e essa decisão veio com peso. O peso de ter sempre tentado, não digo incluída porque nao acredito em contos de fadas, mas respeitada - eu, como figura anónima. E ninguém me deve respeito. Gostava apenas que a inclusão não fosse exclusiva dos grandes festivais. Muitas vezes são apenas pequenas atenções que não se têm. Isto só leva a mais isolamento. Não é que não goste de viver, mas a vida está condicionada. É um privilégio. Sobreviver é o melhor que tenho conseguido fazer nos últimos anos e já nem sei para quê.

Da equação pesaram também a consulta de amanhã, a reunião com os vizinhos por causa do condomínio, o exame de 3a que me vai obrigar a ir para a Marinha na 2a sem saber se fico em Alcobaça ou e volto para a Marinha para voltar para casa na 4a na melhor das hipóteses. Sem contar que preciso de ir as compras por essa altura. A troca? Ver um concerto e ver pessoas, que sei, por experiência, que não querem falar comigo para além dos cumprimentos educados e ver a banda de pé, num ângulo marado a rezar que ninguém ou eu própria me faça perder o equilíbrio.

Eu sei que sou aborrecida, mas ninguém tem que sentir que, ao engajar numa conversa comigo tem que cuidar de mim. Não estou desesperada por contacto humano nem amizade. Outra vez, não acredito em contos de fadas e ainda estou em luto de todas as pessoas que me pasaram na vida e desapareceram. 

Vou morrer sozinha, da mesma forma que vivo e isso nem me assusta. É apenas a constatação estatisticamente mais certa que tenho e é um pensamento que me traz alguma paz, ao fim so cabo - cheguei sem pedir, vivo como consigo e partirei sem angústia, anonimamente, como cheguei.

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