Pestilência

Olá. Preciso de ajuda. Não repares nos meus erros ortográfico ou de concordância gramatical, que já cai para o abismo.

Dói-me a cabeça. Sons, luzes, tudo é demasiado. Não adianta falar com o meu médico porque já falei com ele não há muito tempo. Não consigo preparar o video para o ensaio aberto porque estou confusa, a minha memória está uma lástima e nem ler consigo - consigo à insistência, até sentir a cabeça a arder. Não sei o que se passa este cansaço é brutal, consumiu-me. 

Nem consigo explicar o esforço que estou a fazer para escrever aqui, mas é a única forma que tenho de estar ligada à realidade. Faltam-me palavras para descrever a imensidão deste fosso. Foço? Caralho. Nem escrever sei mais.

Não sei o que fazer. Parece que vou desmaiar ou morrer a todo o tempo. Os ataques de pânico voltaram. Preciso de férias mas pensar nelas cansa. Preciso de ir para um sanatório, não ter que me preocupar com nada, não ter que decidir nada. 

Tentei fazer o video para a performance, nada que não conseguisse em circunstâncias normais, mas nem ler conseguia, as palavras demoram muito tempo a chegar, a dor vem, miudinha, a visão deixa de ser clara, a porta do vizinho ao fechar faz-me saltar com um arrepio na espinha - alerta, sempre alerta e não consigo mais.

Ler emails tornou-se um desafio. Responder a mensagens nem em áudio faço sentido. Adiei os compromissos desta semana para a semana que vem. Não consigo estar muito tempo a olhar para ecrãs, na rua tenho que meter tampões nos ouvidos. Até o som do mar está demasiado alto.

Quando pedi ajuda ao médico não sabia que era possível ficar pior. Não sei sair neste poço sozinha. Nunca pensei ansiar pela "ida às brancas" (se bem que nem isso seja uma possibilidade).

E mais uma vez, passo isto tudo sozinha. Uns porque não quero preocupar, outros porque sei que nao adianta. Sinto-me um estorvo sem motivo para estar desta forma, mas estou. Como fazer para não sentir esta culpa?

Na óptica normal, não tenho motivos para estar assim - o meu trabalho é uma brincadeira, não tenho filhos nem casa para cuidar, o meu sofrimento é uma piada. E sabendo disto, não consigo deixar de sentir isto, cansaço pestilento.

Até notas de felicitação me custam a dar (porque é que toda a gente nasce agora também?). Engajar com as redes sociais da malta também me custa (e é a única forma que tenho de me fazer presente na vida dos outros).

Estou com medo, não de não conseguir, mas de ficar assim. A vida já era difícil o suficiente.

Quantos dias preciso de olhar para o tecto, protegida de estímulos, para recuperar? E que merda de cansaço é este? Até perguntava ao meu médico, se ele não fosse um imprestavel (estou a ser escrota, ele é bom moço, mas irrita-me que ele não saiba de nada e que pense que vitaminas ajudam - talvez ele seja mesmo imperstavel pelo menos no meu caso).

Não, não estou deprimida, estou frustrada porque tenho mil coisas para fazer e o meu corpo mandou-me foder. Talvez seja demasiado dura comigo própria (não é um talvez, é uma certeza). Que a densidade do meu pensamento (muito elogiada) não me traz nada para além destes elogios e ocasionais e muitas mais pontes em chamas. E que se fodam as pontes em chamas, por mim queimava o mundo e foda-se. 

Só quero voltar a mim, e nem peço a 100%, só o suficiente para poder ir às compras ou tomar um duche sem estar a morder o coração. (Isto vai passar, eu sei, mas precisava de escrever para não me perder. Já estou mais calma.)



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