O verbo que não exprime

A urgência hoje é apenas vontade, sem tema. Acordei este manhã de um pesadelo e não consegui voltar a dormir. O sonho, nada de especial - eu, numa cama num quarto sem referência, acordava com uma sensação de medo animalesco, aquele que se sente na base da cabeça e que se espalha pelo corpo. O pesadelo foi só isso, acordar com medo. Não sei se quê, não era de ninguém (costumo sonhar que existe alguém intruso no espaço em que estou), pelo menos não humano - era quase como se estivesse um intruso na casa, mas não fisicamente.

Do meu lado dormia alguém, não sei quem, um homem que parecia fazer parte fazer parte da minha vida - curioso, porque creio que a última vez que dormi acompanhada foi à 3 anos atrás. Ele tinha estatura média, talvez pequena para um homem, sei que não tinha muito volume e dormia profundamente, com o braço reposado na minha cintura. Aquele ser era-me algo. 

No sonho abro os olhos com aquela sensação de terror, paralisada - não sabia se era real ou não. Estava virada para a janela desse quarto, e nas minhas costas ficava a porta, que estava entreaberta. Saí de mim e coloquei-me na janela de pé, onde conseguia ver os traços do quarto, que era enorme. Via-me deitada e via-o também, e parecíamos tranquilos - no terror nada se passava. 

Na ombreira da porta aparece a minha mãe, de camisa de dormir sem dizer uma palavra. Vi-me deitada a dizer-lhe "podes acender a luz" ao que ela me disse que não havia. Disse-lhe que ela podia juntar-se a mim e acordei com a mesma sensação que tinha no sonho. 

Não é preciso que aconteça nada para sentirmos. Pensei que, de certa forma, é isso que tenho estado a trabalhar. Creio que seja difícil articular isso ao outro sem uso da palavra, e mesmo na palavra não consigo fazer-me entender. Não é um lamento, é uma constatação. Tenho vindo a aperceber-me que me custa escrever de forma descritiva, de forma analítica, para me fazer preceber - a verdade é que, para além de me custar, não me interessa fazê-lo. Durante muitos anos não percebia porquê que as pessoas não entendiam muito bem o que queria dizer quando escrevia (e acho que continuo sem as fazer entender). Também não percebo muito bem o que os outros me dizem. 

Há,  contudo, um entendimento qualquer que não vem da palavra. Como aquela presença no meu sonho, mas mais sutil - o estar. Estar e absorver, observar, sentir. Estou em permanente diálogo comigo própria, todos os dias, desde que acordo até que me deito. Talvez seja por isso que raciono a minha possibilidade da interacção com o outro.

Este arrepio que esta música me proporciona.

Estas lágrimas que saem num livro qualquer.

A inebriação da contemplação do céu de fim de tarde.

Tento mostrar isso ao outro mas ainda não consegui - pelo menos não da forma como sinto. Talvez nunca vá conseguir. Existe aqui dentro tanto e tão rápido que não consigo produzir nem um terço. E o mundo, o tempo dele, não é suficiente. E é arrogância minha pensar nesta minha necessidade, que é do ego - ninguém tem que me entender.

Este abismo vai-se tornando cada vez mais abismal e, apesar de haver escolha, escolho continuar neste pequeno glaciar à deriva. Não pretendo firmar o meu nome porque não importa e porque até ele me soa elemento externo, sempre soou. Nunca consegui conectar-me com o meu nome e dificilmente com esta noção do eu. Outra vez, como fazia em criança:

"Eu sou eu"

"Eu sou eu"

"Eu sou eu"

Que não significa nada. O eu de dentro desconhece o eu de fora, como posso eu que os que vêm o de fora consigam ver o de dentro? Erro de tradução. E mesmo eu não consigo traduzir fielmente o deslumbre que sinto quando vejo um floco de neve a formar-se na janela, nem o alívio de entrar no mar.

Talvez os antidepressivos harmonizasse a escala dos sentimentos e agora, se já sentia muito, deixei de ter palavras para usar. Presença, para ver e sentir para tentar traduzir, mesmo que de forma tosca, o lado de dentro. E não é sequer com outro intuito que não seja só a partilha.

"Sentes?"

Talvez seja esse apenas o propósito (e que tão difícil é).

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