A tempestade

Madrugada dia 1

1os trombones do juízo final fazem-se ouvir sem qualquer clemencia, e com eles o som de coisas a cair dentro nos apartamentos vizinhos e lá fora. A electricidade caiu antes, por volta das 4h30. A rede caiu há pouco. 

Tinha acordado um pouco antes deste inicio (fim) no sofá, não por causa da tempestade. Tinha a televisão ainda ligada (ligo-a para adormecer) e estava a fazer o meu ritual de transferencia de espaço quando a luz caiu. É normal que a luz caia aqui, e fui buscar uma lanterna velha ao quadro da luz. Aí correu tudo muito rápido, tão rápido quanto a sua passagem – são 5h29 e já acalmou, prosseguindo para oeste.

O chão treme debaixo de mim, pego em algumas coisas e coloco-as no outro quarto, que está vazio e não tem janela directa para a rua, baixo todos os estores, meto um toalha para impedir que o ar venha com tanta força para dentro de casa, corro para fechar as portas do meu quarto e da sala mas a da sala não tranca – corro para a casa de banho para puxar o cordão do roupão para conseguir amarrar a maçaneta de um com a maçaneta do outro e FODA-SE, o cordão é demasiado curto e corro para o improviso, vou ao bengaleiro que tenho na entrada e puxo de uma erchape e ato-o ao cordão numa ponta e à maçaneta na outra – não ficou perfeito mas serve, não me posso demorar muito mais aqui porque os teus ouvidos estão e rebentar e tenho que me recolher.

Tranco-me no quarto e recebo uma mensagem da minha irmã, a avisar-me para me proteger e ligo-lhe – garanto-lhe que estou bem e o telefonema terminou porque um estore dela acabou de ser arrancado. Envio uma mensagem à minha mãe a uma amiga que vive perto da minha irmã e esta confirma – está fodido mas estão protegidas, tento telefonar à minha mãe e já não consigo – não tenho rede. Estranhamente a minha mãe perguntou-me hoje se não estava com saudades e eu retroqui “de quê?” não me aprecebendo que ela estaria, muito provalvelmente, com medo. 

Agora não ouço vivalma. Assim que os ventos correram para o mar ouvi algumas motas e carros em marcha, o que não é normal. São 6h agora e o temporal já seguiu. Não me apetece ir ver se tenho danos, apetece-me fazer algum trabalho ou bordar mas não há luz, rede nem net. 

Ao ouvir a minha irmã percebi que ela estava com medo. Devo estar ainda dormente de cansaço, porque estou a operar na base da praticalidade – não tenho energia para sentir. Estou apenas à espera que a rede volte para saber da minha mãe e, muito provavelmente acampo aqui umas horas, a ver se durmo ou algo assim para ter força para perceber os estragos, se sofri algum.

A minha mãe tem-me falado do tempo, dos estragos que fez a X e Y. Não vejo noticias e noto que quem vê está num sentido de alerta permanente, como se o mundo estivesse para acabar todos os dias. Talvez o facto de ter deixado de ver televisão tenha contribuído para a minha ausência de ansiedade. 

São 6h30, vou espreitar se o dia já comecou. Não, está tudo escuro ainda. Vou aproveitar a luz do PC para tirar a minha foto-ritual, há mais de 100 noites que tiro uma foto antes de ir dormir e guardo-as numa pasta chamada “1 e a mesma” onde as camas mudam com frequência mas a narrativa mantêm-se – eu, sozinha na cama. Pensei que fazer um registo da minha solidão seria interessante para fazer alguma coisa mais tarde mas tenho-me apercebido que não existe nada mais reconfortante que a minha solitude – e talvez seja essa a liçao a aprender com esta minha brincadeira. 

São quase 7h e continuo sem rede, não tenho como tentar contactar a minha mãe. Pelo menos consegui deixar-lhe uma mensagem para que ela fique descansada e eu vou beber leite que trouxe aquando a minha fuga e vou dormir. Engraçado como me tornei uma expert em fugas, tornei-me numa preper sem dar por isso (é das coças que a vida me dá). 


Manhã dia 1

Acordei tarde, sem saber o que fazer. Reparei que os meus estores estão lixados, um deles foi totalmente arrancado. Perto das janelas, estuque no chão, como se tivessem a tentar arrombar a casa. É mau mas não tanto quanto a varanda do 3º andar do prédio ao lado que deixou de existir. Da janela da sala, onde vejo essa tal varanda não-varanda, vejo um portão de garagem totalmente torcido, agarrado ao prédio por um triz. O único estore que consigo abrir é o da varanda da sala, que me dá mais visão. Tenho areia na varanda. Não consigo entrar em contacto com a minha família, vou esperar um pouco para ter noticias. 

Continuo sem água, eletricidade nem rede (volta e meia aparece, onde aproveito para tentar entrar em contacto com a malta – maioritariamente sem sucesso). Felizmente comprei um powerbank depois do ultimo apagão, tem-me safado. Só não comprei o radio a pilhas, mas tenho usado o do telemóvel - mas só apanha duas ou três estações de Lisboa. Nos picos com rede ligo-me aos dados moveis para ter noticias – fala-se pouco do que aconteceu, muita gente a pedir informações sobre casas ou estabelecimentos, mas nós não podemos dá-las porque não existe internet suficiente para tal. Consegui, de manhã cedo, dizer à E-Redes que não temos luz – estava longe de imaginar o estrago. 

Consegui falar com a Rita, que foi a Lisboa comprar um gerador “compra um para mim também, depois dou-te o dinheiro” pedi-lhe – outra coisa que quis ter comprado depois do apagão mas não o fiz. Parece que em Lisboa não bateu forte como aqui. Combinamos que ela no ia deixar nos meus pais. Da parte dela o estrago foi monumental.

Saí um pouco, para ver se o carro tinha sofrido danos, também para ver se o nosso portão tinha sobrevivido – sobreviveu e o meu carro está (velho) bem. Alguns vizinhos varrem os cacos e juntam o entulho. A antena do prédio está presa por um fio. A casa de um vizinho foi obliterada, outros tantos têm vidos partidos. Não fui ver muito mais, na esperança que os meus pais aparecessem. Falei um pouco com a minha vizinha que estava a varrer cacos “a mim não se partiu nada, graças a deus” disse-me. Perguntei se queria ajuda, declinou dizendo que ia para cima porque já não se via muito. 

Vim para casa. Um pouco depois chega a minha mãe, afogueada, ansiosa “trouxe-te um garrafão de agua, era o único que tínhamos, os supermercados estão fechados” disse-me. “Viemos agora porque tivemos a telhar a casa, senão chove lá dentro. O quintal ficou destruído, a arvore da escola caiu, até a escola ficou destruída” relatou. Trouxe também comida feita, porque nesta casa é tudo elétrico (vou ter que deixar o feijão frade com atum e cebola para a próxima). Avisei a minha mãe que a Rita ia levar um gerador lá a casa e mais não pude dizer porque a minha mãe tem propensão para celeumas quando assustada ou sem controlo. Combinamos que sempre que não consigamos entrar em contacto, ela vem ter comigo – boa regra de orientação a manter. Com a pressa de saírem antes de anoitecer, disse-me para não sair com o carro porque existem muitas estradas cortadas ou bloqueadas por arvores. Decidi não ir com eles porque aqui ainda apanho estas nesgas de rede, que na Marinha não se apanha. “Amanhã já devemos ter luz”, e partiram, já de noite.

Fui para a cama cedo, porque está muito frio. Não há muito mais que fazer.


Dia 2

Acordei com a minha mãe a entrar-me no quarto “vens ou ficas? Temos que nos despachar porque o namorado da Rita vem ligar o gerador”. Teci uma qualquer piada sobre a gritaria sobre o gerador ao que a minha mãe me responde “Tenho a arca cheia de carne a estragar-se”. Tudo bem, teria que ir busca-lo na mesma, e se faz mais falta a eles que fique lá. Só ia precisar mesmo dele mesmo para ligar o frigorifico e pouco mais, acabei por colocar tudo no congelador a ver de ainda dura mais umas horas. Ajudei-a a entrar em contacto com familiares que não estão na região. Amanhã creio que vão ver a minha tia, ajudar a telhar a casa da minha outra tia e outras cenas, pelo que me disse que em principio não vinham cá amanhã. Conituamos sem água, eletricidade nem rede. Não saí de casa hoje. Aproveitei para bordar e, quando a luz não dava, para ler. Quando vim para a cama (cedo, assim que anoiteceu, por volta das 18h30, porque está um frio do caralho que só agrava as minhas dores) o powebank morreu e deixou-me com 52% de bateria. Bom, parece-me que vou ter que ir à Marinha na mesma. A electricidade que estava para voltar ontem não me parece que volte tão depressa, sobretudo com a capital de distrito às escuras e as fábricas da Marinha a cortarem na produção porque não há gerador que possa fornecer energia aos fornos industriais (digo eu, com a info que me foi passada durante os anos).

Uma última tentativa para ver o meu email e se existem alturas para receber emails de trabalho é precisamente agora – endure! que arte não é para fracos. Geralmente só consigo ver os emails à noite (deve ser porque não haja tanta gente a usar, sei lá) após receber um whatsapp preocupado da Carolina, que está a par do que se está a passar. Emails respondidos, 29% de bateria, ou seja, 4h de telemóvel. Uma rápida pesquisa no grupo da zona fez-me saber que há um gerador num supermercado, vou tentar ir lá carregar o telemóvel ou aborto e vou para a Marinha à tarde – escolhe escolher um mal entre dois.

Larguei as preocupações técnicas e fui ler: “Desde o momento em que a grande industria matou a vontade de ser livre, a escravidão criou no proletário o desejo do poder, não só a vontade de poder politico à custa da burguesia, mas o desejo do poder em si, um poder imposto a tudo o que se afigura humano. Todo o individuo dominado pelo desejo de poder, e muito particularmente o proletário politicamente activo, acaba por considerar seu inimigo mortal todo aquele que continua a desejar ser livre; e mais precisamente porque se tornou necessária a existência de uma disciplina extremamente rigorosa na luta que o proletariado mantém contra os seus inimigos.

À fase anti-autoritária do socialismo sucede-se um socialismo autoritário(..)” Fritz Brupbacher sobre Mikhail Bakunine. É. Isto explica a virada de muitos comunistas para o partido "que diz as verdades" - e dizem, se olharmos aos actos em vez das palavras. Que tolice pensar nisto, eles não querem saber de ninguém, a sua bússola moral é feita de plástico e MELHOR! A culpa é do socialismo (palavra que a maior parte deles conhece por associação a outro encéfalo que pensa que vai ficar rico se lamber o cu aos fachos certos. Ridículos. 

De repente pensei que talvez fosse possível tirar bateria do computador para o telefone – é. Aproveitei para atualizava estes acontecimentos pré-apocalípticos. Telemóvel a 100%, assim posso ir tirar fotos aos prédios que a malta está a pedir (emigrantes). Não o devia fazer, já que foram todos correr a votar no coisinho, mas é isto que falta, ajuda-mutua (e educação, de forma urgente).   





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